—A lei—disse eu—ensina que amemos a Deus sobre tudo, e aos outros como a nós.

—E eu digo como a lei.

E olhava-me, penetrantemente: fallava como n'um sonho, ou a alguem invisivel.

—Não se póde servir bem a dois amos: um d'elles se ha de desprezar, outro servir. Não se adora no mesmo coração a Deus e a Moloch.

Comprehendi que o Rabbi não tinha confiança em mim: que me julgava um emissario do templo para lhe escutar a doutrina, e dar testemunho contra elle.

Respondi com uma dignidade dura:

—Tens para mim palavras desconfiadas, Rabbi. Chama João, Elle sabe que creio em ti, e que não vou dar-vos testemunhos, que o Sanhedrin põe por traz das portas dos blasphemadores da lei. O meu corpo serve e vive no templo, mas muitas vezes o meu espirito tem andado comtigo, em desejo e em verdade, no teu lago de Tiberiade. Chama João.

O Rabbi considerava-me attento.

—O homem—disse elle—dá testemunho do homem: só Deus conhece os corações.

—Pois bem: tu, que, segundo dizem, és hoje o maior vidente d'Israel, tu julga, ou condemna minha alma.