Sinto hoje não haver copiado, e ter completamente esquecido, a parte do Eça de Queiroz n'esta collaboração extravagante. Lembro-me nitidamente de que havia n'ella trechos espantosos pelas imagens originaes, pela phantasia, pela graça, pelo inesperado.
VIII
Ainda dormiamos, um dia que o Eça de Queiroz ficára em minha casa, quando á porta do quarto apareceu uma pequena cabeça de cabello muito curto, faces pallidas, feições miudas, ligeiro buço sobre os beiços grossos, e uns olhos pequenos, piscos, risonhos e maliciosos. Por cima d'esta cabeça via-se outra de longo cabelo negro e crespo, nariz aquilino, olhos grandes, bigode audaciosamente retorcido, e mais abaixo uma terceira cabeça rosada, de olhos avermelhados, cabello aos caracoes louros, bigode lourissimo pendente.
Acordámos.
—Luiz! Manoel! exclamou o Eça de Queiroz bocejando.
—Chavarro! Conclui eu sentando-me na cama.
Eram o conde Luiz de Rezende, seu irmão Manoel,[38] o João de Souza Chavarro.[39]
—Chegámos do Porto. Vimos buscal-os para jantar, disse o conde de Rezende.
N'essa noute jantámos no José Manoel, ao Caes do Sodré,—um Restaurante celebre, a preço fixo, onde nós causavamos devastação e horror, pela quantidade inverosimil do que comiamos, discutindo toda a sorte de assumptos inintelligiveis.
N'esse jantar demonstrou-se o vasto ridiculo do Romantismo, descreveu-se, discutiu-se e approvou-se o Realismo na arte, fez-se a apologia violenta e clamorosa da frieza, da impassibilidade, da serenidade critica, da correcção nas ideias, nas maneiras, no estylo, na toilette,—a apotheose de todas as correcções. Terminámos, depois da meia noute, abraçando effusivamente o velho Andrews,—o inglez que tinha uma lenda mysteriosa, e que alli jantou, durante annos, despejando por noute, em silencio, com methodo, lentidão e continuidade, 3 garrafas de vinho do Porto.