E, emquanto na cosinha da Taberna, onde bebiam marinheiros e uma guitarra gemia phrases do Fado, se preparava a pescada com batatas e a caldeirada que encommendáramos, o Eça de Queiroz e eu, n'um quarto do primeiro andar, organisavamos o seguinte problema cuja glosa e solução seria enviada ao providencial Lourenço Malheiro:
Christo deu-nos o amor,
Robespierre a liberdade;
Malheiro deu-nos tres pintos:
Qual d'elles deu a verdade?
O Salomão Saragga fez-nos uma sabia dissertação sobre a prosa rythmica dos livros hebraicos e declarou-nos que, como Semita puro, não pudera jámais fazer versos,—mas comporia, para o caso memoravel, um Psalmo penitenciario sobre a vaidade da pescada cosida e das caldeiradas humanas.
Almoçando, o Eça de Queiroz e eu glosámos e resolvemos o problema em 4 decimas, cantadas alli logo, ao acompanhamento do Fado que continuava a ouvir-se gemer na cosinha ao rés-do-chão.
Perderam-se estas decimas que com effeito sobrescriptámos para o Lourenço Malheiro, e duas das quaes, escriptas pelo Eça de Queiroz, eram d'uma graça scintillante.
D'outra vez dois dos nossos amigos,—o capitão João de Sá e o Zagallo,—convenceram-nos a irmos com elles a uma espera de touros.
Na volta, de madrugada, abancámos a cear n'uma tasca ao Arco do Cego. Eramos, a esse tempo, um grupo numeroso. Appareciam amigos, conhecidos, desconhecidos. Nós, expansivamente, iamos convidando. Elles iam comendo, bebendo, desapparecendo. Quando rompeu o dia e quizemos nós mesmos partir, descobrimos que haviamos gasto, em bacalhau e Collares, um dinheirão que não tinhamos na algibeira.
Comeramos n'um pateo onde havia gallinhas, perto d'uma horta com couves e uma parreira. Ao lado, dava para esse pateo uma casa estreita, sem vidraças, onde se guardava fructa, legumes seccos e feno.
O Eça de Queiroz e eu, já somnolentos, resolvêmos esperar alli, até á tarde seguinte, que o João de Sá e o Zagallo nos viessem desempenhar com o dinheiro necessario a pagar as nossas dividas.
Cerca do meio dia acordavamos sobre os mólhos aromaticos do feno, rodeados por gallinhas e pombos familiares. As paredes da casa onde dormiramos eram caiadas. Então,—depois de almoçarmos ainda a credito,—com dois lapis, comendo fructa, começámos a cobrir as paredes com um longo poema, indeterminado, lyrico, humoristico, tristissimo e hilariante, mixto, como genero, do Childe Harold e D. Juan de Byron, do Mardoche e Namouna de Musset, do Intermezzo de Heine, e da Fabia de Francisco Palha. Este exercicio durou por 4 ou 5 horas. Duas das paredes da casa ficaram, até á altura de homem, cobertas de versos.