Junto da Egreja da Memoria o Eça de Queiroz dirigiu-se a uma casa baixa, de janellas cerradas, e bateu.

Os habitantes da casa estavam ainda evidentemente no melhor dos seus somnos.

O Eça de Queiroz explicou-nos:

—Móra aqui o Mancilia a quem vamos dár um tiro. Só elle nos póde salvar, n'este deserto.

E continuou a bater durante minutos.

Por fim ouviu-se fallar dentro da casa. Alguem abrio a porta resmungando, e vimos diante de nós uma cara larga, um bigode castanho, e uns olhos, entre terriveis e risonhos, sob uma grande trunfa de caracoes desordenados. Era o Lourenço Malheiro.

—Menino, contou o Eça de Queiroz, estamos esfomeados após muitas horas de incalculavel creação romantica. Jurámos não morrer antes de produzirmos 3 obras de genio. Dá-nos entretanto dinheiro para almoçar. Mas olha lá... Communicámos toda a noute, espectralmente, no Restello, com as armadas portuguezas que d'alli fôram ao descobrimento da India e do Brazil: Dá-nos pois dinheiros antigos e suggestivos,—sequins, dobrões, florins, ducados, escudos, peças, ou, quando menos, pintos...

O Malheiro foi dentro e trouxe tres moedas de cinco tostões.

—Ouvirás fallar da tua generosa dadiva, Mancilia,—disse o Eça de Queiroz apertando-lhe as mãos com commoção e solemnidade.

Voltámos a Belem.