A noute estava muito quente. Havia uma grande claridade de lua cheia.
Seriam umas duas horas da madrugada quando chegámos á praia da Torre.
Quasi varado na areia, havia um barco. Mettemos-nos dentro. A maré enchente fez-nos fluctuar.
Ahi continuámos a nossa conversação até que o dia appareceu e o sol se levantou por detraz da casaria e dos altos de Lisboa.
Desembarcámos então e dirigimos-nos para Belem, com fome, em busca d'uma Taberna ou Restaurante. Queriamos almoçar alli mesmo, continuando, á beira do rio, a nossa discussão. Mas conheciamos os nossos tres apetites, e verificámos, reunindo todo o dinheiro, que elle apenas pagaria um insufficiente repasto.
Que fazer?
—Tenho uma ideia, disse o Eça de Queiroz,—fazendo o gesto consagrado de bater na testa.—Tenho uma ideia genial,—accrescentou, erguendo tremulamente os braços ao Céo:—Sigam-me.
E negro, esguio, curvo, agitando a badine na mão como se esgrimisse, com passos largos e rythmicos, que pareciam saltar obstaculos invisiveis, a sombra da figura esguia e immensa, projectada pelos raios horizontaes do sol nascente, Eça de Queiroz adiantou-se em direcção á calçada que leva de Belem á Ajuda.
Salomão Saragga e eu iamos atraz, famelicos, murmurando.
Seriam quasi 5 horas da manhã.