São exactamente do periodo dos escriptos colligidos no presente volume as linhas seguintes que deviam, na intenção do author, ser versos alexandrinos:[35]

Oh Satan tenebroso, tragico fulminado,
Tu vencerás em mim o intimo Deus bom
Não com as armas biblicas com que bateste os astros,
Mas vindo unicamente vestido á Benoiton.

Mas é de pouco depois a seguinte admiravel poesia, mais tarde publicada com a assignatura de C. Fradique Mendes:[36]

Serenata de Satan ás estrellas

Nas noites triviaes e desoladas,
Como vos quero, mysticas estrellas!...
Lucidas, antigas camaradas...
Gotas de luz no frio ar nevadas,
Podesse a minha boca inda bebel-as!
Não vos conheço já. Por onde eu ando!...
Sois vós, mysticos pregos d'uma cruz,
Que Christo estaes no Céo crucificando?
Quem triste pelo ar vos foi soltando
Profundos, soluçantes ais de luz!
Oh viagem nas nuvens desmanchadas!
Doces serões do Céo entre as estrellas!
Hoje só ais, ou lagrimas caladas...
Ai! sementes de luz mal semeadas,
Ave do Céo, podesse eu ir comel-as!

Triste, triste loucura, oh flor's da cruz,
Quando vos eu dizia soluçando:
—Afastai-vos de mim cardos de luz!—
Podesse eu ter agora os pés bem nus,
Inda por entre vós i-los rasgando!


Hoje estou velho, e só, e corcovado;
Causa-me espanto a sombra d'uma estola;
Enche-me o peito um tedio desolado:
E corro o mundo todo, esfomeado,
Aos abutres do Céo pedindo esmola.
Eu sou Satan o triste, o derrubado!
Mas vós estrellas sois o musgo velho
Das paredes do Céo deshabitado,
E a poeira que se ergue ao ar calado,
Quando eu bato com o pé no Evangelho!
O Céo é Cemiterio trivial:
Vós sois o pó dos deuses sepultados!
Deuses, magros esboços do ideal!
Só com rasgar-se a folha d'um missal,
Vós cahis mortos, hirtos, gangrenados.
Eu sou expulso, roto, escarnecido;
Mas a vós já ninguem vos quer as leis
Oh! velho Deus, oh! Christo dolorido!
Lembrae-vos que sois pó enegrecido
E cedo em negro pó vos tornareis.[37]

Dois episodios mostrarão o seu então quasi permanente desejo de improvisação poetica:

Uma noute, no verão de 1867 ou 1868, depois de cear, o Eça de Queiroz, o Salomão Saragga e eu, fômos de passeio, conversando, até Belem.