Os escriptos colligidos n'este volume são assim, em prosa, os Cantos fragmentarios d'um immenso Poema:

O Universo é um infinito de almas. As cousas teem sentimentos humanos que se disseminam, sem se alterarem, com a pulverisação de todas as mortes. Os que morrem vão diffundir-se nas cousas, sem nas decomposições aniquilarem a personalidade, passando por fórmas inferiores no homem, e por fórmas purificadas na natureza. Na alma é que se concebe, cria, o mal: o corpo, a materia, essencialmente inalteravel, volta sempre á pureza natural. Dos successivos ideaes, e das successivas e profundas commoções, o homem gera, para todo o sempre, Deuses que o dominam, que vivem d'uma vida sentimental e independente, mas que fogem, uns ante os outros, para desvairados destinos, que se asylam, errantes, em todos os grandes centros de vida mysteriosa da creação, que se fazem seducção sob a fórma ainda angelica e já ironica do diabo, que se dispersam na natureza transformadora.

Com este vago thema geral, o Poema em prosa d'Eça de Queiroz propunha-se a ser a expressão das mais profundas regiões do sonho, da visão, do indeterminavel, do substracto phantastico que se encontra sob a realidade evidente, queria tornar sonoras as capacidades de vibração musical que fórmam a intimidade de todos os seres,—todas as vibrações impossiveis de completamente reduzir aos sons calculados d'uma escala musical;—era a phantasia tocando, um momento apenas, o mundo da realidade, para logo se afastar d'elle, voando, exilada pela incomprehensão, pela insensibilidade, pela determinação nitida e clara das forças sensatas do espirito. E assim, após os bellos Deuses de marmore, que se escondem fugitivos nas florestas ainda cheias dos symbolos de religiões anteriores, os anjos sublimados ou reprobos do christianismo,—a propria ironia espiritualista de Satanaz, a propria pallida e doce figura de Jesus,—vão egualmente perder-se e ser esquecidas: Morreu a phantasia. São futeis todas as illusões. Reina o calculo demonstravel.[30]

Heine tambem já contára o exilio dos antigos Deuses,[31] e Michelet[32] recorda o brado, «Le Grand Pan est mort!»[33] que se ouviu pelo mundo ao apparecer de novas crenças.

O que caracterisa este momento da vida litteraria d'Eça de Queiroz é a sincera commoção do crear phantastico, sem excluir, já então, a ironia,—que mais tarde é o principal instrumento de trabalho do seu espirito,—fornecedora de tão delicadas velaturas, ou de toques tão vivos e reaes a todas as suas obras. Consegue assim crear um mundo imaginario, um scenario de allegorias; sabe que esse mundo é illusorio, que só parece povoado por metaphoras,—e enternece-se, e commove-se, e communica essa ternura e essa commoção como se as produzissem realidades, sentindo e fazendo sentir, ao mesmo tempo, inexplicavelmente, que com effeito exista uma profunda realidade, vagamente symbolisada por todas essas imagens.[34]

Como quer que episodicamente falle de assumptos inteiramente reaes,—da America do Norte, de Lisboa, da vida de estudante em Coimbra,—é sempre o mesmo substracto visionario da realidade para que o seu espirito procura expressão.

Esta situação especial do espirito de muitos artistas não foi ainda, parece-me, sufficientemente estudada pela critica e pela philosophia da arte.

VII

Eça de Queiroz tinha, por essa epoca, a mesma exhuberancia e originalidade de phantasia em verso: porque sentia muitas vezes a necessidade de metrificar,—quasi que o mesmo genero de necessidade de som e rythmo que o fazia com frequencia cantarolar, em voz baixa, pequenas phrases musicaes, quasi sempre erradas, mas sempre impregnadas das mais patheticas inflexões.

Os versos que compunha tinham um enorme relevo pela originalidade da concepção e das imagens, e conservavam ainda a fluencia romantica, apaixonada, phantastica, dos primeiros escriptos, quando já elle a havia quasi inteiramente eliminado da sua prosa realista. Mas teve sempre grande difficuldade em comprehender e sentir os processos technicos da metrificação.