Pouco depois,—em 1871,—Eça de Queiroz descrevia n'uma das Conferencias democraticas do Casino, o Realismo na arte, expondo as ideias em parte praticadas por Flaubert e Courbet, e theoricamente descriptas, por Proudhon, no livro Do principio da arte e do seu destino social.
O fim da Arte é, desde então, para Eça de Queiroz, a reprodução exacta da natureza, da realidade, impessoalmente, impassivelmente. A intervenção da ironia representa a fórma superior, a unica fórma admissivel da opinião se manifestar e a correção para qualquer excesso de sentimento.
Foi por este tempo que eu lhe aconselhei a reunião em volume dos antigos Contos phantasticos da Gazeta de Portugal e lhe reli, se não me engano, As memorias d'uma forca.[40]
Ao ouvir a sua obra primitiva, Eça de Queiroz soltava gargalhadas sarcasticas, gritos de indignação contra as imagens, o assumpto, o estylo: não comprehendia como podesse ter escripto assim, tão pessoalmente, tão apaixonadamente, com tanto desleixo—dizia elle,—na construcção da phrase e no emprego dos vocabulos.
Mas depois d'uma longa discussão concluiu dizendo:
—Tens talvez razão,—está claro, tens razão. Talvez se deva republicar isso em livro;—mas sob o titulo critico e severo de Prosas barbaras.
Não pertence a esta Introducção descrever as subsequentes phases do desenvolvimento esthetico, e da obra litteraria de Eça de Queiroz, e eu devo resistir á tentação de mostrar aqui como elle foi um dos artistas mais eminentes da Litteratura portuguesa de todos os tempos,—e de todas as Litteraturas, nos ultimos annos do seculo XIX.
Juntarei ainda, apenas, uma ultima recordação:
Eu lamentava sempre muito que Eça de Queiroz houvesse abandonado o mundo das creações phantasticas onde a sua imaginação tão maravilhosamente vivêra.
Um dia, no verão de 1891, foi o Eça de Queiroz a minha casa,—por esse tempo, em Vaucresson, n'uma clareira da floresta de Saint Germain, não longe de Paris. Então, passeando sob as arvores do macisso de alto fuste que rodeia os Lagos romanticos de Saint Cucufas, contou-me elle: