XII

Eu tinha o rosto coberto de lagrimas: e ella compunha as prégas do seu vestido!

Ás vezes o grande mar embalava-se preguiçoso, emquanto as ondas pequenas—as pobres ondas!—soluçando, choravam sobre a areia.

XIII

Houve um tempo em que andavam exiladas dos logares humanos as estatuas, que tinham feito a lenda da belleza antiga. Eram de marmore pallido, e a sua nudez era doce e melodiosa.

Outr'ora, no tempo dos idyllios divinos, quando ainda vivia o grande Pan, e havia deuses debaixo das estrellas, ellas viviam entre os jogos, as choreias, a luz e as flores: brancas, como as espumas ionias; serenas, como a lua de Delos; melodiosas, como a voz das sereias.

Agora andavam perseguidas e errantes pelas florestas sonoras, e envolvidas na consolação immensa, que sáe do canto das aves, e da frescura das plantas.

Ás vezes um cavalleiro, batalhador escuro, que voltava das cidades de oiro e de coral, encontrava uma das brancas peregrinas, como uma apparição de languidez e de tristeza, evocada pela musica das ramagens. E se elle por acaso deixava mergulhar nos seus olhos os raios brancos e avelludados dos olhos de marmore, ao outro dia os caminheiros, os que vão de noite cantando á molle claridade das estrellas, encontravam, junto das grandes arvores pensadoras, um corpo inanimado e livido, como aquellas creanças das lendas, a quem as bruxas chupam o sangue!

Esta historia é de ha seiscentos annos—e de hontem á noite...

XIV