XVII
Quando te amava e pensava em ti, via-te soberba como o mundo, e eras para mim a terra, o ceu e o mar. Agora vejo que tinha razão; porque és tão varia como o ceu, tão fria como o mar, e tão dissoluta como a terra.
XVIII
Eu abri aquelle coração, que era delicado, pequeno e feminino. Descobri lá dentro vagamente uma floresta medonha, que se debatia e rugia, como uma multidão de doidos sinistros, todos vestidos de ramos e de folhas: na sombra andavam os olhos redondos e famintos dos lobos: por cima da folhagem mugidora esvoaçava, baloiçada por ventos immensos, uma confusão de sombras, que uivavam e se arrepelavam, e rasgavam com os ossos dos cotovelos as carnes molles, e lambiam o sangue que escorria das orbitas sem olhos, e davam beijos selvagens, enroscadas e desfallecidas em voluptuosidades mais morbidas do que os orvalhos da lua.
Depois fixei o coração da minha bem-amada, e vi-o outra vez delicado, pequeno, e feminino;—e tão feminino, tão pequeno, e tão delicado, que lhe dei um beijo!
XIX
Eu ia para baixo dos arvoredos, para junto dos rios—e olhava para as nuvens.
Tudo me parecia despovoado e apenas como a sombra de uma vida distante.
Outr'ora—ó lendas de encantos e de amores! ó rondas aereas das nixes por entre a musica dos cannaviaes! ó ondinas humidas! ó danças nebulosas das wilis! ó espiritos gentis e vaporosos, que andaveis nos aromas das violetas! ó elfos pequenos, que adormecieis dentro do calice dos lirios brancos, embalados como n'um berço! ó dôces e enganadoras creaturas, que povoaveis e alumiaveis tudo como estrellas romanticas!—outr'ora os rios, o ceu e os arvoredos encobriam-vos, ó invisiveis! mas como em tecido fino, que deixa passar todos os aromas e todas as côres.
E agora os rios, o ceu, os arvoredos estão desertos.