Os arvoredos só contam, como velhos palradores, historias de gigantes, loucas legendas de combates e feitiços, e as aventuras das filhas da folhagem.
O ceu tem apenas nuvens, que erram lentas e pesadas como os pensamentos serios d'um craneo immenso.
Os rios vão sempre cantando e fugindo, como os amores da mulher.
XX
Andamos todos soffrendo. Passamos lentos, desconsolados e alumiados pelo sol negro da melancolia. Nem largos risos, nem bençãos fecundas. A esperança fugiu para além das estrellas, das nuvens e dos caminhos lacteos. Nos corações nascem amores sombrios e loucos. E tudo porque um dia nasceu uma creança estranha, que foi alimentada com um leite morbido como a lua, e envolta n'uma tunica livida como a morte!
XXI
Onde estará ella agora—a minha bem-amada, aquella creança de olhar profundo?
Era n'aquellas almofadas que ella se recostava: era por alli que ella passava—e as flores do tapete, sob a pressão dos seus pés, viviam e perfumavam.
A pé! a pé! meus desejos! Acordae, acordae, e ide buscar-m'a! Accendei todas as estrellas, e ide procural-a pelos caminhos escuros! Desgrenhae os cabellos verdes das florestas! Assoprae a espuma das ondas! Dispersae as multidões! Quebrae os encantos! Ide procural-a pelos astros! Despedaçae as tendas aereas, onde vivem os sonhos!
Ide, ide, ó meus desejos todos! Eu ficarei esperando solitario e silencioso, como um pombal d'onde fugiram todas as pombas.