XXII

«Perdi a minha bem-amada, e todo o ceu está negro, e nem ha estrellas que me consolem! Só resta morrer.»

E o corpo diz á alma:

«Adeus para sempre! Ó exilada divina, tu vaes morrer! ó flôr dos sonhos, tu vaes desfazer-te com todos os teus aromas! Lembras-te, filha, como eu velava por ti? Eu andava pallido e triste quando tu soffrias: e, quando te alegravas, andava córado e vestido de risos. Ás vezes tu deixavas-me e subias serenamente a torre esguia de marfim, onde habita o ideal: e eu, em baixo, esperava sem olhar, sem voz e sem movimento: e quando descias, illuminada e séria, eu escondia-te voluptuosamente—a ti, ó santa! a ti, ó purificada! E agora vaes morrer: e nunca mais te verei, ó minha vaporosa filha! Eu vou andar errante e perdido no mundo, por entre a materia enorme. Vou andar nas arvores e nos astros, nas ondas do mar e na luz dos comêtas, nas rosas e nos olhos das mulheres lascivas. Vou talvez cobrir as maiores tristezas vivas, ser a folhagem dos cyprestes e o farrapo dos mendigos! E tu vae sumir-te, ó alma doce e dolorosa!»

E a alma dizia ao corpo:

«Não chores. Davia ser assim. Tu és são e forte: eu sou delicada, indefinida, dolente. Adeus, e perdôa-me. Fui desdenhosa comtigo. Queria ver-te frio e mudo. Queria que fugisses d'aquellas mollesas, que são feitas da voz perdida das sereias. Ás vezes queria, na minha ideal seriedade, que te desfizesses em orvalho e pó, para eu poder ir fundir-me na minha immensa alma de luz. Mandava todos os meus desejos para aquelle paraizo de sombras, onde anda a alma de Ophelia.

«E quantas vezes, ó meu corpo bem-amado, eu não seduzi os teus olhos a que seguissem as viagens immensas das estrellas! Então não sabia ainda, que havia de cair e desfazer-me, como uma gotta de agua! Adeus! Em breve não te lembrarás mais de mim.

«Ha-de nascer-te uma outra filha, e depois outra, e outra. E tu has-de estreital-as apertadamente, ou ellas se chamem alma como eu—ou se chamem aroma—ou, então, se chamem som.

«Adeus! Escuta: se nas tuas peregrinações atravéz da materia, encontrares os átomos d'aquella que eu tanto amei, não te juntes com elles; porque, se vos juntardes no calice d'uma flôr, a flôr ha-de mirrar-se;—se fôr na luz d'uma estrella, a estrella ha-de apagar-se;—se fôr nas aguas do mar, o mar ha-de gelar-se...»

MACBETH