Shakspeare, porém, quando vê Macbeth matar os reis, matar o povo, derrubar os capacetes heraldicos, matar os instinctos, matar os Macduffs, matar as creanças d'olhar divino, as mulheres de seios fecundos, matar a patria—corre desvairado, toma uma floresta e vem esmagar a feroz creatura sob um desabamento da santa natureza: e aquelle castigo passa com o ruido terrivel do carro da justiça.
Este Adão do mal tem uma Eva monstruosa—Lady Macbeth. Lady Macbeth é a serenidade do mal. Ella, com a sua attitude soberana e barbara, tem a vaga semelhança d'uma Juno homerica. Tem em si toda a grandiosa rigidez, todas as frias austeridades da natureza do norte.
Ella é a energia selvagem, que de longe conduz as batalhas. Ella passa no drama como sacerdotisa do mal, predestinada e serena: até ás vezes parece fluctuar, no seu olhar frio, não sei que funebre resignação: as coleras e os castigos têm quasi piedade d'aquella mulher esteril. Ella não tem o amor, não tem a consolação, não tem a melancolia, não tem a maternidade. Alguem, feroz e desconhecido, lhe tirou aquelles amollecimentos onde ha lagrimas, para lhe poder conservar a attitude hirta e rigida do mal.
Lady Macbeth é como uma estatua do crime, feita de marmores e de bronzes, e erguida ao longe n'uma lividez silenciosa, tendo por pedestal a noite. De vez em quando concebe, com lascivos estremecimentos d'alma, as oppressões e as violencias, e vem então lenta, deixa caír da sua mão estendida as agonias e as destruições, accende com um olhar as sinistras queimadas pela planicie, e volta para os lados da noite e da humidade, arrastando o seu manto, que faz a cada passo como que uma onda negra e humida de sangue, que a segue.
E no emtanto, quando ella passa, o olhar perde-se na contemplação perigosa d'aquelle busto forte, d'aquelles braços de aço, d'aquella testa que tem reflexos de opala, d'aquelles cabellos poderosos de um negro flammejante, d'aquelle seio de fórma barbara. E então abre-se na alma, como uma grande flôr do mal, um desejo, negro e reluzente. Aquelle olhar attráe como uma profundidade cheia de echos, de vapores humidos e de mugidos de aguas. E a alma, esquecida da justiça e do bem e dos pudores da piedade, quer atravessar as brumas do mal que cercam aquella mulher e palpar os brocados luzentes e recamados que a vestem, destrançar-lhe os cabellos pelas molles sombras e dissolver-se n'aquelle olhar negro, como uma flôr se dissolve num vinho forte. O coração ri-se dos gemidos da Escocia e do ultimo high-lander, que morre contemplativo, tocando as árias da sua montanha na ultima cabana, e lastima unicamente Macbeth porque tem para matar—só um Duncan. Suffoca o peito a negra lembrança de um desfallecimento lascivo, n'aquelles braços de marmore pallido, salpicados de sangue. A contemplação d'aquella terrivel Lady Macbeth, em Shakspeare, deixa o corpo frouxo e tremulo, como se sobre elle se estendesse a nudez de uma deusa.
Foram estas figuras tenebrosas que Verdi quiz revelar no seu poema musical de Macbeth.
Ha, sem duvida, na obra immensa de Shakspeare creações que devem dar a sua alma, a sua vida, a sua paixão, a esta musica moderna, vestida de sensualidades pesadas, coberta com velludos de prégas molles e silenciosas. Porque em Shakspeare ha tudo: ha os corpos disformes feitos de lôdo: os corpos transparentes feitos de pulverisações de luz; os corpos luminosos feitos de argillas ideaes: ha almas tão puras como musicas de constellações, tão terriveis como as fulgurações do desespero, tão voluptuosas como os beijos vermelhos do sol. Elle semeou alli, com mão augusta, as energias, o amor, as enervações, os ciumes, as angustias, as melancolias, a duvida, a paternidade, a covardia—eu sei?... Ha toda a sorte de vestidos, sêdas, farrapos, lutos, purpuras, sudarios; umas cabeças têm corôas flammejantes, outras cabeças têm corôas de violetas: aquellas creações têm nos labios o lyrismo, a ode, a imprecação, a satyra, a chocarrice: ha architecturas, tormentas afflictas, arvoredos sagrados, luares e apparições. Assim caminha enorme aquella obra, tentando a grande aventura da immortalidade! Para dar a vida e o sopro ideal a esta creação immensa, é necessario que venha a architectura, a decoração, todos os coloridos, os vestuarios, o lyrismo, e sobre tudo a melodia e a orchestra.
A musica deve ser a voz de tudo aquillo que alli está silencioso, sem ter a faculdade de se exprimir, e nós termos a possibilidade de o comprehender,—a voz das estrellas, das pedras, das nuvens, das flôres, de tudo o que, desde as hervas molhadas até ás vias-lacteas, falla muito indefinidamente e com vibrações muito sobrenaturaes, para que o nosso extasi as possa escutar. Quando Julietta suspira ao seu balcão, desejando que o corpo do seu Romeu, depois de morto, seja dividido em pequenas estrellinhas, para que todas as mulheres se namorem da noite, em roda d'ella, as flôres, as vegetações, aquellas molles divindades núas, que se chamam as nuvens, o arfar brando do seio da noite que cria as aragens, a floresta divina de que nós apenas vêmos as pontas das raizes, que são as estrelas—tudo se balança n'aquella evaporação de amor que exhala a alma da languida mulher, luminosa na escuridade do seu jardim, como um diamante no seio d'uma negra: e toda a natureza está cheia de confidencias, de murmurações e de córos. Diante dos pudores, das indefinidas meiguices, das sentimentalidades da alma de Ophelia, diante dos pensamentos de Hamlet, incertos e revoltosos como as ondas, como os ventos, como as nuvens que no ar se fórmam e se desmancham, o lyrismo do celeste William empallidece como um heroe derrubado: e então a musica vem, na sua ideal serenidade, dolorosa e branca, revelar todas aquellas vibrações celestes.
E estas imaginações radiosas dos poetas devem entrar antes nos poemas musicaes do que as figuras historicas.
São aquellas creações maravilhosas que nos enlevam, que nos fazem soffrer, que nos transfiguram a alma.