Que importa que agonise Maria Stuart, e a dôce Maria Antoinette, e Beatriz de Cenci, e a idyllica Ignez de Castro? Nós vemos estes desaparecimentos de astros, com os olhos enxutos, attentos á justiça de bronze da historia: e, se nos interrogam sobre aquellas fatalidades, mostramos lá em cima o grande azul constellado.
Mas que Julietta se definhe e que lance, chorosa, o seu olhar fulgurante pelo espaço, para allumiar a fuga de Romeu até Mantua; que Desdémona diga a canção do salgueiro, onde se morre de amor; que appareça entre os lutos reaes o enterro virginal de Ophelia, nós vamos, desgrenhados e afflictos, perguntando por que caminhos mysteriosos sóbe lá cima, até á radiosa bondade divina, o côro supplicante das lagrimas.
No emtanto, parece que as imaginações terriveis e ferozes dos poetas não pódem ser nobremente transportadas para a musica: e quando os maestros querem subir aquelles escarpamentos divinos, cáem, sem fòlego, junto da montanha sagrada: e só recobram a paixão, a alma, o lyrismo, o sopro divino, diante das creações femininas, lúcidas figuras feitas de cheiros suaves onde habita a alma dos deuses, e de petalas macias, e de vapores de luz.
Sem fallar em Gounod, que não comprehendeu a grande figura de Fausto, mas pôz divinas vibrações nos labios de Margarida, o grande Rossini não pôde erguer-se até á região onde desvaira a alma de Othello, e ficou-se a chorar um chôro celeste com Desdémona, debaixo do salgueiro.
Assim tambem Verdi, o luminoso Verdi, não comprehendeu aquellas trevas, que Shakspeare derramou na alma de Macbeth.
Verdi, o musico querido dos mexicanos, dos americanos, dos russos e de nós outros, os portuguezes, é, realmente, o unico compositor italiano verdadeiramente sério que ficou, depois do desgraçado Donizetti; Rossini retirou-se da arte.
Verdi tem um talento vigoroso, apaixonado mesmo, mas falta-lhe o lume santo, o desvairamento ideal, o deus, aquelle sôpro de que falla a Biblia. A sua musica é profundamente materialista: é uma melopêa energica e estridente: é uma melopêa colorida e pesada: ha mesmo o quer que seja de rigido e de metallico n'aquella sonoridade sensual: elle sabe excitar as sonoridades materiaes, mas não consegue arrancar a alma do seu vestido de carne e leval-a, núa e possuida do infinito, pelas regiões das surpresas radiosas.
Todo o enthusiasmo que Verdi tem alimentado na Italia, provém do momento grave em que se revelou.
N'esse tempo a Italia revolvia o poema convulsivo da sua reconstituição: os italianos, que tinham adormecido n'aquella rede tecida com os raios do sol, que se chama a preguiça, começavam a erguer-se e a experimentar os seus musculos frouxos e amolecidos de amor e de sonhos. N'esse momento Verdi foi pela Italia com um canto poderoso, em que os libertamentos batiam as azas. Aquella musica apaixonada, ardente e vermelha, enrijava as enervações e couraçava as energias: e a Italia seguia com idolatria o poeta, que lhe soprava na alma, com o amor das epopeias, o amor das liberdades.
No Norte, quando a Allemanha, no tempo de Napoleão, começou a pensar no seu passado, como no deus porque havia de bradar no dia das batalhas, apparece uma musica nacional, a de Spohr e Weber, que canta as velhas poesias da Allemanha, melodias feitas quasi dos cantos populares, que diziam, outr'ora, á tarde, nas encruzilhadas da Floresta Negra, rhapsodos errantes: e quando a grande patria, ouvindo as caçadas de Samosel pelas florestas da Thuringia, os estremecimentos dos elfos vaporosos pelos prados Hyrcinios, e todas as velhas mythologias do Rheno, vivendo, soffrendo, voando, susurrando n'um livre canto, ergueu-se terrivel, entoou tambem, ella, o velho canto de Luthero, couraçado de ferro, e atirando para longe a sua roca de Margarida, ficou, sevéra e illuminada, esperando junto do Rheno, tendo a um lado o espectro da honra e a outro lado o phantasma da justiça.