Verdi, ou instinctivamente ou intencionalmente, fez em parte, no Sul, o que tinham feito os poetas do Norte: nem todos aquelles enthusiasmos foram fecundos: as duas patrias sangram ainda: e as flautas tristes do Norte, e as guitarras gemedoras do Sul só sabem aquelle chôro lento e doloroso de Rama, quando perdeu a esposada da sua alma: e não é verdade que a esposada dos povos é a liberdade? Pobre Italia! Pobre Allemanha! Deus vos envolva n'um olhar de benção e de repouso, n'este tempo em que estamos, que é a vespera das agonias!
Mas, voltando ao Macbeth, é certo que Verdi fez d'aquella figura desvairada um heroe italiano, melodioso e mau. Por toda aquella opera anda errante um terror transparente e molle. Será porque a musica, a meiga errante do espiritualismo, não póde comprehender aquellas duas almas pavorosas saídas da noite e pesadas de materia? Não sei. O certo é que aquella opera parece uma transfiguração do velho Macbeth: parece que o velho heroe livido entrou n'este tempo moderno, amolleceu-se em voluptuosidades, perdeu-se em melancolias, teve as febres silenciosas da alma e assim, frouxo, doente, dessorado, vem com Lady Macbeth contar a sua velha legenda tragica sobre uma scena resplandecente. Com effeito, aquella opera faz saudades do drama de Shakspeare: era alli que Macbeth erguia o seu rosto erriçado de barbas, e invocava Hecate de tres cabeças: era por aquelle terraço, onde mugia o vento, que elles atravessavam, esguedelhados e convulsivos, para a camara de Duncan.
E assim, emquanto aquellas figuras lyricas se adiantam para a orchestra de poderosos alentos, com as gargantas túmidas de melodias gemedoras e violentas, a alma póde deixar o seu querido corpo e ir por cima dos mares e dos continentes, para os descampados da Escocia, vêr passar aquellas sombras unidas de Macbeth e de Lady Macbeth, que, segundo as legendas, galopam de noite nos clarões das tempestades, uivando manobras de batalha.
E depois póde a alma voltar, para ouvir aquella confusão de ruidos coloridos e apaixonados, de melodias pesadas que murmuram, que estremecem, que gemem e que gritam, e que se vão desvanecendo em volta do corpo e cobrindo-o como uma onda. Emquanto se canta Macbeth, a alma póde andar longe, pelo paiz das chimeras.
A LADAINHA DA DOR
(AO SNR. A. A. TEIXEIRA DE VASCONCELLOS)
O musico Berlioz, ao voltar das bandas molles da Italia e das ilhas da Grecia de lividos escarpamentos, sem serenidades idyllicas e sem myrthos—recebeu nas ruinas das Sorveiras, junto de Nizza, onde elle trabalhava na sua symphonia de Harold, toda cheia do mar, esta carta vinda de França:
«O pintor Lyser voltou da Bohemia com a sua doidice elegiaca. Pedi-lhe o retrato de Paganini como tu querias, mas elle disse-me, em segredo, que fôra o diabo que lhe guiára a mão n'aquelles traços, e queria conservar essa lembrança do diabo, um velho amigo. Tem esse cartão n'uma pasta, entre um desenho do velho Claudio Loreno e um retrato de Dante.
Hontem, ao cair da tarde, estavamos ambos sentados juntos da janella. O ar entrava todo emmaranhado nos cordões verdes das trepadeiras: nós estavamos calados e abandonados á doçura divina das cousas.
O pobre Lyser, com os seus grandes cabellos caídos, tomou o retrato de Paganini e desenhou, em volta, toda a sorte de entrelaçamentos, de folhagens, de penumbras delicadas, de dissipações de nuvens: e, entre aquellas efflorescencias, escreveu os nomes de Dante, de Hamlet, de Romeu e de Sancho Pansa, dizendo com a sua voz dolente: «Paganini tinha alguma cousa de todos estes homens». Depois, no cimo do cartão, desenhou a figura de Ophelia levada pela corrente, e um morcego, com as azas dobradas, olhando tristemente, d'entre as cannas debruçadas sobre o rio, o corpo branco sumir-se, levado serenamente como no seu elemento, e os grandes cabellos louros emmaranhados nos limos da agua: e por baixo escreveu: «Duvída, Ophelia, do meu amor, da verdade luminosa das estrellas, dos coloridos das folhas, da luz branca do sol». E depois, com a voz séria: «Paganini, sobretudo, era um morcego...»