É assim aquelle pobre Lyser com a sua triste loucura. Sabes que lhe morreu a irmã? No dia do enterro, Lyser acompanhou o corpo com a sua rabeca debaixo do braço e fustigando com o arco as hervas molhadas. O dia estava nublado. «Minha pobre irmã, disse elle, que nem póde levar presa no seu lindo vestido uma restea de sol!» Sabes a religião que Lyser tem pelo sol. Passa dias inteiros deitado entre as frescuras dos caminhos, sob a grande luz sonora do sol. N'essa noite em que a irmã foi enterrada, foi sentar-se junto da cova tocando as velhas árias de Lully, e de vez em quando compunha as dobras de um chale que tinha lançado sobre a sepultura. Assim esteve perdido n'uma saudade mais dôce que a lua, e mais profunda que a noite. Como o ceu estava nublado, elle dizia, de vez em quando, á morta: «Não tenhas pena, cá fóra nem estrellas ha.»
Foram-n'o buscar de madrugada, e elle vinha lento, dependurando-se do fato do coveiro como uma creança, a quem assustam os uivos dos cães e o chiar dos carros.
Dias depois voltou ao cemiterio e o coveiro não o deixou entrar: o pobre Lyser ficou junto das grades com os olhos cheios de lagrimas. «É uma cousa de pressa que tenho a dizer a minha irmã» affirmava elle com a voz passada de supplicações. O coveiro estava dentro fallando com uma mulher de cabellos côr de vinho: e como a quizesse prender n'um abraço barbaro e rijo, a rapariga, ao fugir-lhe, caíu sobre uma sepultura toda coberta de violetas; o coveiro ergueu-a, sacudiu-lhe a terra dos vestidos, e deu com o pé rude na terra da sepultura, resmungando: «Malditos tropeços!»
Por fim, veiu abrir a grade enferrujada ao pobre Lyser e com uma grande voz: «Vá, que já são horas de entrar sem licença.» Lyser sumiu-se entre os cyprestes, debruçou-se sobre a cova e escreveu na brancura da pedra: «Luiza, se lá em cima encontrares a estrella Vesper, pergunta-lhe de que tintas se faz a côr de rosa da tarde e os seus reflexos de rôxo pallido; preciso sabel-o. Hontem dei o teu chale branco a uma pobre: dize-me se queres que te traga alguns dos teus vestidos. Olha, se passares de noite por estas alamedas, não te approximes da casa do coveiro; vive lá uma má mulher.»
Dias depois chamou-me e disse-me: «Sabe? começo a acreditar que minha irmã morreu. Por isso, peço-lhe uma cousa: quando tiver alguma camelia não a esmague, talvez seja feita do seio da pobre rapariga.» E afastou-se, arrastando os seus sapatos como se estivessem pesados de agua: mas de repente, voltando-se e com a voz cheia de supplicações, accrescentou: «Nem as violetas: talvez sejam feitas dos olhos d'ella!» Então, tomou-me pela manga e levou-me para entre arvores onde havia o sol, o côro das colmeias, os cheiros de feno e os coloridos frescos dos fructos: elle ia com a face toda tomada pela côr quente e fecunda da vida.
«Não sabe? dizia-me o pobre Lyser com a sua voz dôce e lenta como um escorrer de mel: não sabe? Muita rapariga, que dizia as cantigas das eiras e dançava debaixo dos platanos, morre nos frios de fevereiro. Ha-de ter visto por esse tempo os pobres namorados que andam chorando sobre as covas com os cabellos caídos. Então aquelles corpos das raparigas desfazem-se. Alguem, que sabe e que vê, aproveita aquellas fórmas e aquelles coloridos: da pelle do seio fazem-se petalas de camelia, dos olhos tristes fazem-se violetas, da côr dos labios fazem-se os rainuculos, dos halitos perdidos fazem-se os cheiros bons, e do olhar, da meiguice, do desejo d'ellas faz-se a primavéra, o dôce ar das madrugadas de maio. De modo que de noite as flôres que estão nos vasos, na sombra das alcôvas, conversam das suas existencias passadas; fallam das danças ruidosas á guitarra; d'aquella manhã em que a ponta do seio veiu espreitar, pela abertura do vestido, os olhos do namorado; d'aquella tarde em que a face se vestiu de côr de rosa para receber a visita de um bigode louro; d'aquella noite em que as palpebras castas acudiram aos olhos, que estavam perdidos e quasi a dizer sim. E se uma noite espreitar as flôres que estão nos castos paraizos das alcôvas, ha-de-as vêr saír dos vasos, entrelaçarem as fórmas e os coloridos e fazerem na sombra a vaga similhança de um corpo feminino.»
É assim o pintor Lyser. Fez-se noite n'aquella alma, e por isso ella tem todas as qualidades da noite: o sombrio, o vago, o negro, o azul, o languido, o estrellado.
Agora deseja morrer e ser enterrado n'uma paisagem casta, assoalhada, murmurosa, para se julgar protegido e coberto pela alma errante do seu amigo Claudio Loreno.
Quando a luz do sol se retira, prende-se, como um manto de seda que se arrasta entre hervas seccas e ramagens, ao dorso de uma onda, á prôa de uma barca de pesca; assim aquelle espirito, ao retirar-se d'aquelle corpo, se prende ainda a tudo o que na vida é superior, e elevado, e meigo—ao amor, á melancolia, á compaixão, á arte.
Quando cheguei do Baltico, soube que Paganini se retirára de França: tive a respeito d'elle grandes conversações com o rabequista Sica, que pensa em fazer, para o verão, uma peregrinação pela Syria.