Estavamos horas debaixo das tilias, fallando do chimerico espirito de Paganini, até que as estrellas appareciam, contemplativas e augustas. Sica contou-me toda a legenda idyllica e barbara de Paganini: os seus amores em Verona, aquella cantora enfezada, de mãos macias e sentimentos velados, envolta em grandes sedas, e aquelle abbade de fivelas luzentes, com quem ella ia debaixo dos velludos silenciosos, n'um entrelaçamento de braços, em doce e azulada viagem pelo paiz de Cythera. Depois contou-me toda a sua trabalhosa odysseia de prisões e de degredos: aquellas noites em que elle, poderoso e solitario, entrava na confidencia dos negros soluços do mar: noites dolorosas de lagrimas, em que aquelle tragico homem, enroscado nas palhas do seu carcere, olhava ao longe o mar Mediterraneo amollecido por aquella mollesa que escorre dos astros e da voluptuosidade da noite desconhecida e fecunda.

Dizia-me Sica que Paganini lhe contava, que sempre ás horas escuras via as fivelas do abbade luzirem na noite. «Ás vezes o remorso, affirmava elle, é bondoso, encarna-se em cousas que têm uma vida, uma carnação, um sangue, uma mollesa, que se podem abrandar, a quem se póde supplicar; mas aquellas fivelas metallicas, inertes, rigidas, eram um remorso frio, surdo, inflexivel, faziam-me subir ao rosto o suor do antigo Josaphat.»

Dizia tambem Paganini, que uma das suas grandes torturas, no carcere, fôra assistir, pela visão, á decomposição fria do corpo da pobre cantora Marietta. Elle via aquelle corpo sem oleos, nem sacramentos, debaixo das terras limosas e tumidas de seiva, esverdear-se entre as ossadas. Via de noite, perto de si, aquella terrivel decomposição das carnes, aquellas brancuras inertes, aquellas molles curvas sugadas pela terra. Via, aterrado, os cardos, as papoulas, as gramineas, os cyprestes serenos comerem a sua bem-amada fria, muda, esverdeada e inchada!

Então, alli, tomou odio á natureza: elle atravessava sempre as frescas fecundidades, as searas, todas as verdes fórmas da vida, os campos e as granjas, com um horror judaico e mystico. Só perdoava ao mar: e ás vezes, depois, na Dinamarca, ia para junto das aguas do mar do Norte tocar na rabeca as velhas cantigas scandinavas e as balladas runicas; e desejava que, depois de morto, o seu corpo pudesse andar, durante a eternidade, nos verdes embalos da agua.

Foram terriveis todos aquelles annos de prisão.

O rabequista Sica contou-me depois todas as viagens de Paganini com os estudantes da nova Allemanha, indo pelos burgos, pelos povoados, pelas cabanas de lareiras somnolentas, cantando ás estrellas e dizendo, na sua rabeca, sob a lucidez do ceu do Norte, as velhas balladas da Thuringia.

Contou-me o amor da duqueza de Weimar por Paganini; e como uma noite de concerto em duas cordas da rabeca elle disse o dialogo mysterioso de duas vozes que se fallavam debaixo do arvoredo, depois entre sedas de cortinas, ao fresco ar d'um balcão, e depois ainda na terra, debaixo das raizes dos cyprestes, e, por fim, indefinidas, tenues, luminosas, entre o encruzamento sagrado dos raios dos astros.

Era uma allusão desconhecida, que encheu de lagrimas a duqueza de Weimar.

Aquelle homem, ultimamente, tinha o peito cheio de mortos. D'elle retirára-se o elemento humano: já não tinha a compaixão, o riso, o amor, a indignação, a paternidade, a emoção.

Lento, com os seus cabellos caídos, livido, com as terriveis rugas da face semelhantes aos f f d'uma rabeca, com as mãos transparentes, cheias de agilidade e de deslocações, com os seus grandes casacos escuros de pregas hieraticas, atravessava os povoados, os silencios, as scenas resplandecentes, poderoso e solitario, procurando sempre, aos pés, uma cóva onde não se esfolhassem arvores, onde não nascessem hervas, sem saber que na noite, na humidade, nas choças, nas pedreiras, nas estradas, nas costas, ha uma raça que soffre, e que ha beiços lividos da fome, e que ha febres silenciosas e amores desertos, e suores d'angustia, e apodrecimentos de honras, e uivos d'almas afflictas, e lentos e frios esvaecimentos de pudores e de bellezas.