Sica contou-me tambem o grande poder musical de Paganini e a sua attitude nos concertos, cheia de abaixamentos e servilidades: e contou-me tambem, meu amigo, aquella noite gloriosa e flammejante em que se tocava a tua symphonia de Romeo e Julietta, e em que elle veiu, entre os applausos e as vozes de corôação, ajoelhar e beijar-te as mãos, dizendo com os olhos cheios de agua:—Sois outro Beethoven!

Ultimamente, como sabes, tinha uma doença de garganta que o emmudeceu: trazia então um livro branco em que escrevia o que pensava nas conversações da noite; aquella doença não o vergou mais; elle tinha já o silencio—estoicismo da alma, e refugiou-se na mudez—estoicismo do corpo.

Passava então com o rabequista Sica horas inteiras, tocando rabeca ou guitarra. Ultimamente, preoccupava-o muito o ter de deixar a sua rabeca só, depois de morrer; e escrevia no seu livro: «Quando eu estiver para morrer, pensar que a hei-de deixar aqui, entre as mulheres d'aço, estes jornalistas lividos e os agiotas calvos, no meio d'esta multidão esfomeada de materialidades! que se ha-de encher de pó a um canto, ella, cheia de alma e de legenda!»

No emtanto, elle acreditava que, no dia em que morresse, a sua rabeca havia de estalar e os pedaços, apodrecidos na terra, ir-se-iam confundir com o corpo d'elle nos átomos das arvores, ou das estrellas, ou das aguas. E escrevia então: «Que felicidade poder ter a mesma folhagem, dar a mesma luz, lançar a mesma espuma!»

Mas, por fim, olhava para a rabeca com um ar triste e descrente; ás vezes tomava a guitarra e ia tocar n'ella para junto da rabeca, com um gesto de caricias brandas, com um lento correr de dedos, como se estivesse vestindo as cordas com a harmonia viva que tirava da alma; elle queria pôr todos os seus interiores divinos n'aquelle gemer de guitarra, para fazer morrer de ciúmes a sua velha rabeca abandonada.

Por esse tempo, um dia que elle estava com Sica, escreveu assim: «Já me não fio na minha rabeca; acredito que ella não ha-de lamentar a minha morte. Não morre, não! Ha-de dar-se ao primeiro que a tomar nos braços; ha-de dar-se com suffocações lascivas, e dizer-lhe os mesmos segredos, mysticos, voluptuosos e illuminados, que me dizia a mim... Que importa á rabeca que o pobre musico apodreça debaixo da terra?!»

Ultimamente o musico Sica necessitou ir á costa normanda, porque tinha lá seu pae, velho marinheiro, morrendo junto das aguas; e quando voltou, coberto de lutos e soluços, disseram-lhe que Paganini tinha partido para o sul.

Adeus, não te demores em Nizza. Acaba depressa a tua symphonia do Harold, e recommenda-me ao nosso velho amigo—o Mar.»


Tempo depois, o homem, que tinha mandado esta carta, recebeu est'outra de Berlioz: