«Estou ainda todo frio das visões d'esta noite. Sabes que móro nas Sorveiras, que são umas ruinas junto do mar, pedras bem conhecidas por toda a populaça do ar: abrigam-se alli, como n'uma pousada, os viajantes sombrios da atmosphera, que são as chuvas esguedelhadas, os ventos uivadores, os granizos, as molles brumas e os nevoeiros. Em redor estão espalhados os casebres dos pescadores, todos conchegados, como as ovelhas quando anda temporal no monte; a costa é terrível e, no emtanto, o mar tem, ás vezes, serenidades só similhantes ao calmo olhar d'um idiota.
Este povo trigueiro de pescadores sáe, logo de madrugada, para os balouços da agua nas suas lanchas esguias, carunchosas, todas cheias de legenda e do cheiro das pescas: logo na alvorada se sente em baixo, junto da voz da maresia, aquellas cantigas fortes de deitar redes, robustas como calabres e sãs como o sol. É uma bella vida! Durante o verão, nas séstas silenciosas do mar, todos andam na pesca, os velhos, as creanças rotas, resplandecentes e sujas, e as mães de forte seio—estas bellas mulheres da costa da Italia, que eram tão desejadas pelos marinheiros gregos e phenicios, que tinham visto Mileto, Abydos e Corintho.
Agora que o outono começa, esta pobre gente deixa as redes rasgarem-se ao vento, e vae para o interior dos povoados juntar-se nos campos á outra pobre gente curvada, que lavra e que semeia.
Hontem fui, n'uma barca de pescador, até ao ponto em que o Var desagua. Sabes que é n'este tempo que as pombas emigram para o sul; reunem-se em bandos gemedores e vão, por cima do Mediterraneo, fazendo nodoas brancas pelo ar azulado. Quando voltei, o sol descia: o barco vinha levado de um modo silencioso e casto pelos serenos embalos ondulosos. O mar tinha uma serenidade olympica.
Eu havia-me abandonado ás mollesas da tarde, e, todo estirado á pôpa, via o ceu cobrir-se d'uma côr rosada, como d'um rubor de castidade. As estrellas começavam a apparecer. D'onde vinham ellas? E d'onde é que vem a noite de tão longe, que parece suada de luz? Eu via-as tremer, e pensava que ellas deviam ter frio e medo, lá em cima, nas solidões, sem deuses. A'quellas horas tambem apparecem as ondinas na agua; quem sabe se as estrellas são mulheres de um elemento desconhecido, que vêm de noite em teorias sagradas, celebrando um rito elegiaco? Quem sabe se são arvores agitadas por um vento, que deixam cair estes negros fructos—a melancolia, o amor, a sensualidade?
Depois ri-me d'estas imaginações; mas nas aguas do Mediterraneo, ao anoitecer, n'um barco de pesca, vendo ao longe as linhas molles da costa de Italia, e sobre os montes os fogos dos pastores, não podia vêr as estrellas como nas verdades e nos positivismos modernos, e esqueci Arago, Berthelot e o velho Laplace.
E depois pensava como desejava morrer, que era nos braços da bem-amada, sol da minha natureza, sem dôres mordentes, sem febres silenciosas, e ir assim, entre as fulgurações do desejo, e os deslumbramentos da alma, e os beijos vermelhos e transfiguradores, e os entrelaçamentos divinos, sob o seu olhar santo, ir, n'um lento desmaio da carne, para a frialdade da terra e alli sentir-me, lentamente, dissolver pelas humidades fecundas, pelas seivas brancas, pelas espumas das nascentes, pelas raízes das florescencias!
Ora quando assim vinhamos, vi, na linha escura e aspera da costa, uma massa de arvoredos e, por entre a sombra, uma luz elegiaca.
—Que luz é aquella, meu velho?—disse eu, da pôpa.
O pescador suspendeu as rijas ondulações dos remos, que ficaram direitos, escorrendo, todos esverdeados das algas.