Fui, amedrontado, ao meu antigo balcão gothico e olhei pelas transparencias doentias da noite. Nada. As ondas choravam o seu chôro mystico e as estrellas estavam na sua immobilidade de onde se exhalam religiões. Cerrei as portadas e voltei, com o peito sacudido por um soluço de medo, para junto do brazeiro: então ouvi de novo aquelle som triste da rabeca estender-se lentamente pelo mar como uma nevoa sonora. Fiquei todo tomado de tremores e de frios: e ouvi então, distinctamente, com os ouvidos da carne, a musica de uma rabeca, acompanhada, surdamente, pelo mar.

Ao principio foi uma melodia de fresca serenata, que a agua acompanhava com um marulho humido e alegre: e ao mesmo tempo, ao longe, havia o gemer rythmico do vento.

Então, durante uns momentos, eu ouvi uma musica estranha de rabeca, acompanhada pelo mar, onde havia gemidos, dilacerações, e vozes pesadas de lagrimas, e melodias tragicas com dôres da natureza, e sempre, por entre os sons alegres e meigos, uma tristeza surda e lenta corria, como a agua corre, lodosa, entre os juncos e os cannaviaes.

Havia vozes de rabeca, afflictas e barbaras: e ás vezes, dôces mugidos sinistros do mar pareciam presos por uma melodia da rabeca, delgada, tenue, clara como um fio de som. Eu não te sei dizer o que era aquella musica sobrenatural, elegiaca, selvagem, tragica, suave e escarnecedora!

Por fim, de repente, toda aquella orchestra poderosa se calou, como um bando de abutres e aves de noite gritando afflictas, com tragicas palpitações de azas, que vêm pousar, n'um silencio, sobre um rochedo das aguas. Então senti, de entre aquella amontoação apocalyptica de harmonias, desprender-se, solitaria, a voz da rabeca, e vir, de leve, tocar junto do meu balcão com meiguice, com mollesa, com volupia—as variações do Carnaval de Veneza.

Ninguem me póde tirar do coração, que foi a alma de Paganini que deixou o seu corpo na natureza solitaria das Serenas, e veiu dizer o adeus da musica ao seu velho amigo.

Adeus, meu meigo artista! Soffre e transfigura-te pela dôr: eu aqui estou, cheio de saudades da nossa dôce França, junto das aguas tristes do Mediterraneo.

Creio que, depois da noite de hontem, nunca mais terei o riso sonoro e são. Adeus! dei os teus recados ao Mar, que te manda, como voz de saudação, o terrivel temporal que agora vae na costa.»

O homem a quem esta carta foi escripta, era um artista, um pintor como Lantara, vivendo descuidado na bohemia errante das miserias, das jovialidades e das primaveras. Mas a alma não se maculou com os contactos do corpo: no meio d'aquellas loucuras esteve sempre como uma pomba adormecida. Aquelle pobre rapaz vivia n'uma trapeira, onde trabalhava sem sol, n'aquellas alturas silenciosas e castas, onde vivem e crescem as flôres do bem: depois enlouqueceu e foi recolhido a um hospital: e alli era sagradamente velado por uma enfermeira dôce, delicada e branca como uma virgem de oiro fino de um livro de legendas: o pintor, que, como o seu amigo Lyser, ainda depois de doido desenhava, pediu um dia á enfermeira a sua touca engommada e lisa, e com um lapis desenhou alli, como um agradecimento d'alma, toda a sorte de delicadas imaginações—azas abertas, corôas de folhagens, ondas que vinham beijar um pé branco, corôações de caridades.

Uma noite, a enfermeira ouviu um gemido, e veiu encontrar o pobre pintor com as mãos postas diante d'um retabulo alumiado; a dôce rapariga cuidou, no seu coração, que elle se encommendava á Virgem; escutou: o pobre rapaz doido estava rezando ao seu velho amigo Claudio Loreno. Quando sentiu a enfermeira, voltou-se e disse-lhe, quasi a chorar: «Deixo o meu corpo aos rios, ás arvores, ás abelhas, aos montes, ás searas, a toda a mãe Natureza.» Depois curvou-se, beijou a orla do vestido da enfermeira, e ficou-se enroscado no chão, frio e inerte.