A enfermeira pousou a luz do retabulo junto do corpo, tirou a toalha da Virgem e estendeu-a sobre a face pallida do triste, transfigurado pela belleza sagrada e espiritual da morte.
Ao outro dia de madrugada, quatro homens que riam de farças de taverna, e cantavam más cantigas, levaram aquelle branco corpo á valla dos pobres.
ENTRE A NEVE
(A ANSELMO D'ANDRADE)
O lenhador, pela madrugada, ergueu-se da enxerga e accendeu a candeia.
Junto da lareira, engelhado de frio, cavado de magresa, dormia um rapaz enrodilhado nos farrapos de uma manta. O pobre lenhador desfallecia de febre: até ao anoitecer da vespera andára pelo negro matto, e depois nem teve um magro caldo junto das somnolencias da lareira.
Iam grandes neves pelos montes, e o triste tinha filhos pequenos, que á noite, quando resavam, todos arripiados e magros, em redor da mãe, suffocavam no chôro da fome: por isso, áquellas horas, por entre os nevoeiros molles, elle ia pelos montes, pelas collinas, pelos pinheiraes, rachar, cortar e desramar, a asperos ventos, na grande neve silenciosa.
O rapaz dormia com os pés inteiriçados e todos brancos da lama secca: tinha os grandes cabellos espalhados, e branco tinha o peito. A um canto, sobre esteiras bolorentas, cobertas com o saiote da mãe, as duas creanças dormiam com os cotovellos arroxeados—dissolvidas no somno do frio e da fome. O lenhador tirou a jaleca que levava para os montes, embrulhou-lhes os pés regelados, e com a candeia foi debruçar-se sobre a enxerga onde dormia a mulher: ella tinha o corpo collado ao fraco calor da enxerga como a um seio amado, os braços caidos e frouxos como os de uma mulher esteril: os seus cabellos negros espalhavam-se tristemente pela enxerga como um luto: e a manta esburacada modelava a fórma casta e fecunda dos seus peitos.
Então o lenhador tomou o machado negro e o feixe rijo das cordas, cobriu-se com o capuz de saragoça e foi-se lento, esfomeado e esqueletico, pelos grandes caminhos, duros, lividos e cobertos de nevoas.