O pobre lenhador olhava em redor as grandes neves extensas, enovelladas nas pedras, esfarrapadas pelos cardos: e ás vezes um corvo, passando silencioso e nocturno, vinha bater o ar em redor d'elle com uma selvagem palpitação de azas.

Começava a espalhar-se o dia. Elle sentia-se só entre aquella natureza inimiga e barbara; e por vezes o braço, enfraquecido da febre, vergava sob o machado e as cordas humidas.

Elle ia entrando pelo pinheiral, indolente. O pinheiral era cerrado, e a noite continuava ainda no encruzamento das ramagens lividas. A neve, que caía sobre os ramos, desfazia-se em orvalhos ao calor da seiva.

As arvores estavam como tomadas de um susto religioso.

Quando saíu do pinheiral, em caminho para os montes, lembrou-lhe quando ia para as escamisadas n'uma aldeia do sul, e sob a luz apaixonada e melodica das constellações cantava á viola junto d'uma dôce rapariga de testa santa e de cabellos côr de amora; e elle, o perdido, amollecia o olhar a passeal-o, pela abertura do lenço, sobre a brancura do collo d'ella!

Hoje, áquellas horas, pensava elle, aquella pobre mulher gemia na sua alma, vendo os filhos, sem um bocado de pão, andarem pelo casebre humido, rotos, dependurando-se-lhe das saias, gemendo: mãe! mãe! E os olhos do desgraçado tremiam-lhe nas aguas do chôro.

O lenhador apertou o machado e entrou na floresta.

Os velhos carvalhos violentos e propheticos, os choupos desfallecidos, os castanheiros ruidosos, os olmos gigantescos, as ramagens e os silvados eriçados onde o vento brada afflicto, todas aquellas verduras vivas e sãs que cantam ao sol, no empoeiramento da luz crúa—toda aquella sombria Diana esguedelhada, que se chama a floresta, dormia sob as oppressões da neve, triste, silenciosa, estoica e soberba.

O lenhador, com o machado erguido, ia por entre a floresta; elle conhecia aquellas estranhas attitudes, aquelles escarpamentos de neve, as faces pensadoras dos rochedos, todo o emmaranhamento de ramos, de folhas, d'onde cáem gottas como um echo de chuvas passadas: e todavia, ao endireitar-se contra um velho carvalho, empallideceu, como diante de uma profanação.

O seu coração simples e bom não comprehendia, mas sentia aquellas vidas immoveis, silenciosas e sonoras, que são arvores, ramagens, arbustos, florescencias; elle tinha compaixão dos gemidos dos troncos, das cascas esmigalhadas, das fibras dilaceradas, e sentia que sacrificava alli, á fome dos filhos, vidas infinitas de arvores.