O lenhador atirou o machado contra o tronco do carvalho—e toda a arvore immensa ficou tomada de vibrações dolorosas: e as suas ramagens estenderam-se caidas, sem vida e sem força, pelo tronco, como para se vêrem morrer sem gemidos, n'um silencio soberbo e selvagem.
O sol veiu livido, molle, desfallecido, sem força, sem vitalidade, sem ascenção flammejante e sagrada, entre nevoas arrastadas, entre esvaecimentos lugubres de nuvens. Começavam a esvoaçar os passaros, piando tristemente.
E o lenhador, com o peito arqueado, os cabellos desmanchados, vermelho, feroz, com o machado erguido nas mãos, com tragicos encarniçamentos, luctava contra os troncos, contra os ramos, contra as raizes, contra as duras cortiças e os filamentos tenazes; e enchia o chão de ramagens negras, de braços mortos de arvores, caidos e inertes como armaduras vencidas.
Aquellas arvores que tanto tempo levaram a formar-se, e a enrijar, e a acostumar-se aos ventos tumultuosos, e a saber agarrar as clinas da chuva, e a enlaçar as molles nudezas das nevoas e dos vapores, aquellas arvores cheias das mordeduras de novembro, cheias de legenda e do cheiro das tormentas, encolhiam os ramos n'um estremecimento medroso quando o machado reluzia lugubremente no ar.
Elle tinha a camisa solta e esfarrapada: os sóccos faziam covas na neve: e, esfomeado, terrivel, ia a grandes passos pela floresta, rasgando os silvados, esmigalhando as raizes, envolto em estilhas, em fibras partidas, com gestos tragicos, afastando com o machado o vôo dos córvos; e, todo cheio do amor dos filhos, torturava as arvores, com golpes flammejantes, gritando-lhes: covardes!
Assim lidou sob a neve, e o vento, e a chuva, e a humidade, e as nevoas, e a febre, e a dôr, até ao anoitecer.
Tinha já um monte de ramagens e de lenhas: enfeixou-o nas cordas, duras como os seus braços: encravou no meio o machado: o feixe enorme estava encostado a um monte de neve: as duas pontas da corda por onde elle o havia de erguer, pendiam negras e humidas: então curvou-se todo para tomar o feixe sobre as costas largas: mas quando o ia a erguer, lento e cansado, sentiu os musculos afrouxarem, as mãos esfriarem, subiu-lhe um desfallecimento, e caiu, com os cabellos suados e collados á testa; e os seus dedos inteiriçados esburacaram a neve.
Assim esteve perdido na mollesa do esvaecimento, até que abriu os olhos vagarosos, e ficou-se encostado ao feixe, silencioso e cheio de tremuras.
Vinha-se derramando a noite, desciam as neblinas: todo o ar estava tomado de uma pallidez opaca e severa: caía uma chuva vaporisada: todo o chão estava pesado de neve.
Ao pé do lenhador estava estendido um grande tronco engelhado, morto, sem raizes, sem ramagem, sem seiva: por um lado começava a desfazel-o a podridão.