Em redor erguiam-se as multidões de arvores cobertas de neve, adelgaçadas entre as transparencias do nevoeiro, tristes e nocturnas como monges brancos.

Ao fundo abria-se uma clareira, que deixava vêr ao longe a grande luz, que se ia, serena e timida.

O lenhador, com o pescoço nú, o peito dolorido e ensopado, agarrou as cordas do feixe e, enrijando os musculos, com a face congestionada, as fontes inchadas, as grandes veias saídas como cordagens, e as pernas hirtas, violentou o corpo para se erguer. Mas caíu sobre a neve, amollecido, suffocado, e coberto das friezas humidas da febre.

Então ficou-se a olhar o tronco esfolhado, nú, coberto de neve, e a pensar que o seu corpo ia alli finar-se e dissipar-se entre as podridões dos troncos.

E toda a sua carne foi tomada por uma vibração terrivel. Tinham-lhe lembrado os filhos e a mulher, e o pobre pastor que lhe sacudia, quando elle entrava, a neve dos cabellos e as silvas da jaleca.

A neve caía triste. Áquellas horas ella esperava, junto da porta, a vêr se o via ao longe chegar, curvado debaixo dos seus feixes, pelos caminhos brancos de neve.

Ella estaria com uma mão apoiada á hombreira, e com a outra agazalhando as creanças nas dobras da saia, contra os frios da noite.

E elle estava alli só, esmagado, sob a neve implacavel!

E quando o não vissem vir?! E elle procurava na memoria se já alguma vez teria ficado de noite pelos montes. Nunca.

Se o não vissem chegar, iriam todos, chorando e bradando, com a candeia acobertada do vento, procural-o pelas urzes sinistras.