Ás vezes tomava-o o desvairamento, e via grandes figuras de sombra subirem pelos troncos como um fumo terrivel; e sempre aquelle enovellamento de similhanças humanas subia até se perder nas transparencias lividas do ar.

A neve caía como escorrida das nuvens.

E elle pensava, triste, que a mulher e os filhos saberiam a sua morte na neve, sob o encruzamento irado das folhagens, e todas as mordeduras da ventania, silencioso e solitario como um lobo!

Então aquelle corpo, pisado, rôxo, tiritando entre as roupas molhadas, dissolvido nas mollesas da nevoa, inteiriçou-se; com os olhos flammejantes, os dentes irados, tomado de risos, esfarrapado dos cardos, endireitou-se e, suffocado, esguedelhado, hirto, livido, deu um grito na noite.

Houve um levantamento assustado de passaros por toda a ramagem escura. E veiu um vento e levou, nas suas espiraes violentas, um enovellamento de folhas. E toda a luz do dia se sumiu na clareira. Não havia ninguem pelo monte. Estava só. Só! Nem pastores, nem vaqueiros, nem caminheiros perdidos. Só! E iam-se os passaros, iam-se as folhas, ia-se a luz. Elle ficava só.

Então, vendo em redor a floresta solitaria e negra, a amontoação crescente das sombras, o esvaecimento livido dos ultimos ramos, as attitudes tenebrosas, as corcovas nocturnas das raizes, sentindo ao longe o uivo dos lobos e por cima da cabeça o esvoaçar dos córvos, estirou-se de bruços e bradou, na noite, sob a neve e o ruido dos ramos:—Jesus!

E toda a floresta ficou silenciosa, indifferente, soberba; os córvos voaram gritando; elle caíu, fraco, desalentado, roto, agonisante, macerado; e de cima o grande ceu, o ceu justo, o ceu sereno, o ceu sagrado, o ceu consolador cuspia neve sobre aquella carne miseravel.

E ficou inerte. A neve caía desfeita e branca. Estava estirado. Via por cima a grande immobilidade da floresta, os nevoeiros, que deixavam caír farrapos que lhe vinham roçar o rosto, e a sombra espectral do feixe de lenha.

Elle sentia o corpo entorpecido pelo frio, e na testa e nos olhos abrazamentos mordentes: e parecia-lhe que lhe mordia as costas uma chaga immensa, que tivesse terriveis ardores ao contacto da neve, sob o peso do corpo.

Ás vezes soluçava. E, quando assim estava, viu grandes sombras que lhe esvoaçavam sobre a cabeça e fugiam bradando afflictas, com um terrivel ruido d'azas, esbranquiçadas da neve, apavoradas e ferozes.