Eram os córvos. Tremeu todo. Elle entrevia-os já quando elles viessem pousar-lhe sobre o peito, e curvados, batendo as azas, meio suspensos, enterrar-lhe os bicos negros na pobre carne.
Então moveu dolorosamente o braço entorpecido e apalpou em redor: encontrou um ramo solto, negro, espinhoso: lançou-o contra as sombras negras dos córvos; mas elle tinha a mão quasi inanimada pelo frio, e o ramo, debilmente arremessado, veio-lhe caír sobre a face, e rasgou-lhe a carne com os espinhos. Já, porém, as mãos inertes não tiveram força para o tirar.
E poz-se a chorar. Os córvos voavam terriveis: elle enterrava o pé na neve e atirava-a para o ar, como para os apedrejar. Os córvos desciam.
A neve caía e já lhe cobria as pernas hirtas. Elle então, vendo a floresta que o ensopava de agua, o chão que lhe coalhava a vida, o vento que o transia, a neve que o enterrava, os córvos que vinham comêl-o, todas as hostilidades selvagens das cousas, encheu-se de cóleras, e, silencioso, feroz, com os olhos luzentes na noite, deitou rijamente a cabeça sobre o feixe—e poz-se a morrer.
Então veiu repentinamente um vento tumultuoso: e pareceu ao pobre lenhador sentir, n'aquelle vento, o som de um chôro e uma voz bradando afflicta.
O vento redobrou de furia: dispersou os córvos: elles balançavam-se nas azas entre os redemoinhos do sopro feroz.
A neve caía: e os braços do lenhador já estavam cobertos, e todo o peito estava coberto. Os córvos fugiam: e todo o bando apparecia como uma sombra indecisa e pesada.
A neve caía. E estava coberta a garganta do homem, e estava coberta a bocca.
Os córvos iam-se sumindo nas transparencias da noite...
A neve caía, contínua, silenciosa. A testa do pobre estava coberta, e apenas se moviam ainda, lentamente, ao vento, os seus grandes cabellos escuros.