A neve riscava a noite de branco. Ao longe uivavam os lobos.
E a neve descia. As sombras dos córvos sumiram-se para além das ramas negras.
Os cabellos desappareceram. Só ficou a neve!
OS MORTOS
Hontem foi o dia dos mortos. Os mortos são felizes. Emquanto nas dolentes celebrações da Igreja, ao pé dos altares luzentes, deante do Jesus rôxo e descarnado, os tristes e os simples rezam pelos seus queridos mortos, elles andam dispersos pela grande natureza, pelas florestas esguedelhadas, pelas espessuras sonoras, pelas uberdades da seiva, pelos sulcos fecundos, por todas as verduras d'acre cheiro.
A sua carne soffreu, empallideceu com os medos, emmagreceu com as febres, engelhou-se com os frios; mas agora anda, repousada e sã, pelas frescas vegetações, pelos fructos coloridos, na luz selvagem e vital do sol, nos átomos da noite constellada e suave.
Os que morreram nos apodrecimentos das febres desfizeram-se no seio da terra planturosa, foram sugados pelas raízes e, confundidos com a seiva, vêm outra vez para o sol, em fórma de fructos, de corollas, de ramagens ondulosas.
Os que morreram sobre as aguas do mar, desfazem-se entre as verdes profundidades, entre as areias, os coraes, as conchas, os rochedos, e vêm depois, sob a fórma d'ondas, embalar-se serenos ao sol, ou de noite estirar-se ao peso da mollesa que escorre dos astros, ou de madrugada, cantando com barbaridades de rainhas e doçuras de santas, acalentar o povo dos pescadores, silencioso e trigueiro.
Os que morrem sobre os montes, como os pastores contemplativos, são consumidos pelo sol; e andam dissipados pela luz hieratica das estrellas, pelos vapores molles das nuvens, pelas auroras; são os átomos de luz, serenos, fecundos, consoladores e purificadores.
Assim os mortos são felizes.