Nós outros andamos ruidosos e nocturnos, gordos ou empallidecidos, esfomeados de materialidades, calcando as Margaridas, perdidos nos deslumbramentos da carne; celebramos as religiões, esboçamos Deuses, riscamos sociedades no ar; e, nervosos, desconsolados, derrubadores, no meio d'esta forte vitalidade—como um lavrador que suspende a enxada e se fica, todo amarello, a pensar na velhice sem pão e sem lume—estamos sempre a sustar as nossas alegrias alumiadas e sonoras, para pensarmos, aterrados, nos esfriamentos lugubres do tumulo.

E entretanto os mortos, que são os paes, as irmãs, as bem-amadas, as mães, estão pela natureza, pelos montes, pelas aguas, pelos astros—serenos e immaculados. E porque tememos a morte? Que instincto tenebroso ou sagrado nos faz amar tanto esta fórma humana, estes cabellos, estes olhos, estes braços enrodilhados de musculos? As arvores, as florescencias, as hervas, as folhas, são tambem fórmas da vida, santas e cheias de Deus. Por toda a parte, pelas familias das constellações, pelos planetas, pelas arvores, pelos lividos interiores da terra, pelas aguas, pelos vapores, pelos prados fecundos, escorre a seiva, o átomo santo, a alma universal! Por toda a parte ha attracções, amores, antagonismos, repulsões, polarisações, alegrias, estiolações, pollens, alma, movimento—vida. Porque ha de então ser esta fórma, que tem braços e cabellos, e não aquella, que tem ramos e folhagens?

A vitalidade é a mesma, cheia dos mesmos instinctos negros, sagrados, luminosos, bestiaes, divinos.

Por isso os mortos são felizes, porque andam longe da fórma humana, onde ha o mal, pela grande natureza santa, onde só ha o bem, na pureza, na serenidade, na fecundidade, na força.

Bemaventurados os que vão para debaixo do chão, porque vão para uma transfiguração sagrada. Mal cáem sobre elles as ultimas pazadas de terra e o canto dos padres, barbaro e dolente, se perde com o fumo dos cirios, o corpo fica só na plenitude da noite e do silencio, perante a grande vegetação esfomeada; elle vae dar-se alli como pasto ás boccas sinistras das raizes: elle amollece entre as humidades da terra e desfaz-se em podridões: então as raizes começam a sugar e a comer: a podridão transforma-se em seiva: a seiva sobe pelos troncos, estende-se pelos ramos, palpita dentro da arvore, engrossa, fecunda, arredonda-se nas exhuberancias dos gomos, e abre-se depois em folhagens, em florescencias e em fructos: e o corpo transformado vê outra vez o sol, as grandes poeiras, e sente os orvalhos, e ouve as cantigas dos pastores, e vive sereno, repousado, na floresta immensa.

E no emtanto, junto d'aquelle corpo, que soffreu a metempsycose do bem, foi enterrado outro, n'um caixão de chumbo, entre pedra e cal, hirto e embalsamado. Entre a enorme palpitação diffusa, emquanto em redor se vae operando a lenta transformação da semente, onde já estão em germen as folhas, os troncos, os fructos, as flores, os ramos que mais tarde o vento atormentará, entre as raizes fortes e retorcidas dos arbustos, entre as ondas da seiva, entre as uberdades e as voluptuosidades creadoras da terra fecunda, o cadaver embalsamado alli está, inteiro, hirto, rijo, feio, livido. Elle inveja os átomos livres e soltos, que sobem e descem no encruzamento das vitalidades, que se deslocam e escorrem, como grãos d'um sacco, desde as constellações e os cometas, até ás espumas castas das fontes: alli, sequestrado á natureza, não se póde dissolver na eterna materia forte: não tornará a vêr o sol, as noites amollecidas de orvalhos, os soluços lascivos do mar... Que estranha fatalidade pesava sobre elle, que nem a morte o libertou?

Oh! possamos nós todos ter sempre em vida a religião do sol, da belleza e da harmonia; movermo-nos na atmosphera serena do bem e da liberdade; ter a alma limpa e transparente, sem sombras de deuses e de tyrannos; sentir o enlaçamento divino dos braços da bem-amada—e depois, ó santa Natureza! toma os nossos corpos para fazer d'elles arvores cheias de sombra e ramos resplandecentes!

E ao menos, durante a vida, convivamos com a natureza. Quando entramos n'uma floresta, parece que a luz do sol, que escorre abundante e fecunda, nos enche todo o interior, despertando alli, como faz nas madrugadas de maio, os córos de passaros: e depois ha um responso sagrado, como se todas as iras, e as amarguras, e os desalentos, e os terrores, se curvassem na mesma humildade, ao elevar-se na alma uma hostia mysteriosa.

Durante o dia ha, nas florestas, uma santa celebração: as arvores estão graves como sacerdotes: as flôres incensam: a luz do sol é a alva flammejante e serena que a floresta veste: e ella murmura um canto dolente e sacro, acompanhado pelos passaros religiosos, e d'entre as ramagens eleva-se uma paz viva, fecunda e consoladora, como uma vaga hostia: e, ao fim da missa, as arvores, balançando os ramos, parecem lançar ao povo curvado das plantas, das hervas, e das relvas, a sua benção soberba.

Ora quando passamos entre estas celebrações, tristes, humildes, purificados, de entre a folhagem que se aninha, inquieta, no seio do vento, sáe, para nós, toda a sorte de vozes, de saudações e de confidencias.