São os nossos queridos mortos que nos fallam; e então toda a materia tende a elevar-se, a desfazer-se em vapores e orvalhos, a ir pousar, com suavidade e doçura, nos seios da folhagem, que já foram seios amados...

E depois a natureza tem immensos perdões e reconciliações formidaveis; todos os odios tragicos, todos os corações ferozes se fundem divinamente na promiscuidade sagrada da terra. Ella não escolhe; tudo lhe é bom; as raizes das rosas pastam a podridão dos tyrannos; e dos homens que na terra ensanguentaram, dilaceraram, profanaram, faz carvalhos austeros e cedros religiosos.

Ella é mais dôce que as religiões: nas Escripturas Judas atraiçôa Jesus, e no emtanto ha muito tempo que os dois corpos—o do homem luminoso e o do homem escuro—andam enlaçados e dissolvidos nas mesmas auroras e nas mesmas corollas.

Ella acolhe, indifferente, todos os ritos, todas as religiões: as mesmas oliveiras, que na Grecia encobriam, serenas, as choreias núas dos ritos de Baccho, cheios de ondulações lascivas, encobriram depois, agitadas por um vento feroz, sob a luz irada das constellações, o pobre Jesus, gemendo, arrastando-se na rocha e nas silvas, suando sangue, bradando afflicto na noite das Agonias.

Ás horas em que acabo estas linhas, vae o dia a declinar: agora, lá ao longe, nos campos, lembra-me que anda o semeador erguido sobre os sulcos, roto e sereno, espalhando o grão com gesto augusto: e parece-me vêl-o d'aqui, entre as transparencias morbidas do anoitecer, distribuindo a vida: são os corpos dos seus avós, que elle assim espalha pelos sulcos fecundantes: são elles que se tornaram seáras e que lhe hão de encher o celleiro; são elles que lhe dão a comer a sua carne e a beber o seu sangue. Sagradas transfigurações!

Assim, é na natureza que devemos ir procurar as consolações, estremecer com os amores mortos, chorar no seio das maternidades passadas. É na natureza que se deve procurar a religião: não é nas hostias mysticas que anda o corpo de Jesus—é nas flôres das larangeiras.

A PENINSULA

Ainda hontem eu pensava que nós outros, os peninsulares, nem sempre tinhamos sido uma nação estreita, de pequenas tendencias, somnolenta, chata, fria, burgueza, cheia de espantos e de servilidades: e que este velho canto da terra, cheio de arvores e de sol, tinha sido patria forte, sã, viva, fecunda, formosa, aventureira, epica!

Ah! foi ha muito tempo...

Era n'aquelle tempo em que a Italia rodeava os papas severos; e olhavam para o ceu as virgens do Dominiquino. Por esse tempo ia, pela Europa, uma profunda transformação social. Na Allemanha, Luthero entrava em Worms, com um canto batalhador, em nome do espirito e da alma. O Papado ia morrer. Era necessario que todo o Sul se alliasse na cruzada catholica.