Foi então que se ouviu a voz do Norte, o canto de Luthero. Todos os catholicos correram instinctivamente, rodearam os papas severos, Adriano VI, Clemente VIII, cantaram os psalmos e as missas de Marcello, cheias dos renascimentos asceticos, e foram seguindo o Tasso, que voltava, apaixonado e religioso, para Dante e para Deus.
E o papa continuou caminhando, sereno e terrivel, deixando as sombras das masmorras de Galileo e de Campanella, e mais longe o fumo das fogueiras de Vanini e de Giordano Bruno.
Tal era a lucta do Norte e do Sul.
Ora, durante essa lucta das religiões e das patrias, a Peninsula, encolhida nas suas montanhas, coberta de sol, violenta, sinistro cavalleiro de Deus, armava as caravellas e os galeões para as bandas desconhecidas das ilhas, dos continentes, dos cabos temerosos. Nós outros, os peninsulares, appareciamos ás demais nações como velhos lobos do mar, sempre sobre os tombadilhos, trigueiros, rijos como calabres, sãos como o sol, ensurdecidos pelo clamor das marés, cheios de legendas, e perdidos, ao longe, nas brumas terriveis.
De vez em quando desembarcava este povo, bradando que tinha descoberto um mundo, que lá tinham ficado infinitas multidões, negras, bestiaes e núas, sob a benção dos padres: alli mesmo, sobre a areia, ao rumor das maresias, escrevia a historia tragica da sua viagem, e uma madrugada, tomados das saudades do mar, partiam de novo, radiosos e bons, para a banda das Indias.
Era assim. Todos os annos, aquella multidão immensa de aventureiros embarcava nos galeões, entre os psalmos o os chóros, e elles iam, silenciosos e flammejantes, por entre as sonoras illimitações, os ventos afflictos e os tremores da agua—para os nevoeiros inexplorados.
Iam em demanda de mundos, levando Deus dentro do peito, sob as constellações augustas, entre as tempestades, os rochedos, os climas e as correntes, de pé nos tombadilhos, descobertos, rodeando um Christo, cantando os psalmos ao côro dos furacões, todos reluzentes de armaduras e de divisas de amor, com a alma cheia de altivezas de batalhadores e de doçuras de apostolos.
Iam como n'uma gloria e em nome de Deus! E quando encontravam as hostilidades e os encrespamentos irados dos elementos, as oppressões infinitas dos ventos e das aguas, erguiam as mãos como para uma excommunhão, e bradavam, soberbos, áquelles sôpros e áquellas maresias, os versiculos do Evangelho segundo S. João.
Ora aquelles homens, marinheiros e batalhadores, eram historiadores e poetas. Escreviam os seus feitos.
Escreviam-nos entre os assaltos e as tempestades, no convez das caravellas, nos cabos tormentosos, nas florestas sagradas da India, sob as immobilidades crúas da luz: escreviam cobertos das espumas, ennegrecidos pelos fumos, trémulos das iras das batalhas. Por isso enchiam as suas chronicas e os seus poemas d'uma estranha prodigalidade de força e de vida. E os seus diarios de bordo tinham, muitas vezes, a simplicidade epica de Homero.