Mas elles tambem tinham amores, ciumes, paternidades, paixões, lyrismos interiores, e as saudades da patria nasciam n'aquellas almas como grandes assucenas que se abrem dentro d'um vaso, e que o enchem.
De noite, nos tombadilhos, embrulhados nos seus mantos esburacados, deitados entre as cordagens, aos embalos das marés, emquanto os pilotos, silenciosos, seguiam com os olhos as viagens immensas das estrellas, e todo o mar enorme se amollecia como um seio cansado, elles contavam em voz baixa, com as cabeças juntas, as historias de amores, os torneios, as aventuras, as serenatas, e a vida da patria.
E escreviam poemas, cantatas, sonetos, farças, comedias e elegias.
E para vestirem o sentimento fecundo, forte, cheio do sol e do mar, tomavam a fórma popular.
Estavam longe da Europa, das plasticas da Italia, dos renascimentos gregos e romanos, das antigas fórmas rituaes, das educações classicas.
Não conheciam isto.
Mas lembravam-se sempre das cantigas da patria, das lendas heroicas, dos romances populares, que elles tinham ouvido pelos campos, com que os velhos embalavam os netos, que se cantam do noite ás estrellas por Sevilha e por Granada e que os mendigos diziam pelas velhas pontes dos godos e dos arabes. Porque o povo, na Peninsula, tinha uma poesia, sua exclusivamente, que cantava nos trabalhos, com que adormecia os filhos, em que escarnecia os alcaides e celebrava os heroes.
Fazia d'aquella poesia um uso sagrado: era a sua consolação, o grande leito mysterioso onde adormecia as tristezas: era alli que procurava confortos, recompensas, e as ideias da patria.
No Norte, a poesia popular foi a Invisivel que levou, pela mão, os trovadores, filhos das glebas, até ás lareiras dos senhorios feudaes: foi o primeiro suspiro de amor que os pobres poetas da populaça, mysticos e sensuaes, soltaram para as brancas castellãs que entreviam nos torneios, cobertas de pedrarias; ou passando de noite, brancas, ás estrellas, pelos altos terraços; ou entre as arvores, ao entardecer, quando as ogivas, cheias do sol obliquo, estão flammejantes como mitras.
E as castellãs abriram os braços para os poetas tristes, indolentes, e cheios do paraizo. Admiravel influencia da poesia, que produziu, pelo amor, um renascimento social!