Mas a poesia da Peninsula era unicamente do povo: era a epopeia austera do Cid, exterminador de mouros, e de Bernardo del Carpio, exterminador de barbaros. Na Peninsula, o povo estava sob uma condição especial; tinha uma importancia no estado forte, fecunda e soberba: a Peninsula tinha passado os primeiros annos da sua constituição nas luctas terriveis do forte Mahomet e do Christo mystico; ora o popular da Peninsula não era um servo, era um christão: consagrado pelos baptismos, era uma força individual, que impellia e dissolvia o elemento mourisco, sensual e poderoso.
Ora foi sob a fórma popular que aquelles batalhadores e poetas, que vão hoje tomando a vaga attitude da legenda, escreveram os seus poemas, as suas cantatas, as suas comedias e os seus sonetos.
Então toda a litteratura peninsular tem uma originalidade profunda, independente de fórmas e ritos: a arte, o drama, a poesia, sáem das tradições populares, do clima, do sol, de todas as vitalidades meridionaes: isto quando pelo resto da Europa todas as nacionalidades esqueciam as suas tradições, a sua historia, a sua velha alma, para se envolverem nas fórmas antigas. Era a Renascença. Então apparece o theatro hespanhol, original, cavalheiresco, energico, apaixonado, cheio de selvagens palpitações, de lances, de religião: theatro onde a cruz é um personagem; onde fallam lacaios, heroes, santos, ventos, galeões; onde todas as fórmas da vida se confundem—o riso, o chôro, a ironia, a satyra, o madrigal...
Depois uma pintura mystica e sensual: não é a espiritualisação da alma, é antes a immortalisação da carne, inspirada d'aquelle mysticismo hespanhol, que sob a influencia da natureza, do clima, da politica, da raça, parece mais cheio das tragicas iras de Jehovah, do que das doçuras de Jesus.
Depois uma musica, como a do Dies irae, obra dos terriveis dominicanos: um poema de morte: uma das maiores agonias da alma: musica ascetica e flammejante, onde a natureza apparece, tragica e desgrenhada.
Uma arte onde se torcem todas as chammas do inferno, e todas as pedrarias dos paraizos catholicos, que parece uma lucta tragica e comica da vida e da morte; uma egreja cheia de renunciamentos mysticos, mas onde o mysticismo parece mais um desespero de não poder saciar-se dos bens do mundo, do que uma aspiração a poder fartar a alma nas contemplações divinas: uma defeza do catholicismo, tragica e apaixonada: um amor sublime pelos despotismos e pelos sacerdocios: confusão dos imperadores com os santos e das corôas de metal com as corôas de luz: uma vida superabundante: ascetismos ferozes e onde o sentimento mais apparente é o rancor.
Ao mesmo tempo uma austeridade monastica em tempo de guerra: caravellas que partem, sem cartas nem roteiros, sob as simples indicações das estrellas: quasi, por vezes, uma reconciliação apparente do Mahometanismo e do Christianismo: uma paixão avara pelo dinheiro: o elemento da intriga que quer entrar na politica, vindo substituir o elemento da força: combates cavalheirescos com a Europa visinha. Depois um sol ardente: um sangue exigente: uma carnação soberba: ao longe a America e as Indias como um paraizo de oiros, de metaes e de soberanias.
Tal é o aspecto mais geral da Hespanha nas vesperas da Renascença.
É dramatica aquella vida.
Não admira, por isso, que a fórma suprema da sua arte—fosse o drama.