Elle representa a consciencia soberba da força e da industria, e os grandes orgulhos do calculo: despréza as iras e as hostilidades dos elementos: elle tem de atravessar o Pacifico, o Oceano Indico, o Mediterraneo, os grandes desvairamentos da agua, os ventos immensos, os equinoxios, as trombas, as correntes, os rochedos bruscamente apparecidos, os nevoeiros perfidos, os magnetismos, as electricidades, toda a vil populaça das tempestades. Então todos os navios se preparam:—cordagens, velames, mastreações, complicações e resistencias de forças, toda a combinação astuciosa de lonas e calabres, que transforma as hostilidades em auxilios; elle, o Miautonomah, contenta-se com uma taboa rasa.
Em tempo de lucta precavem-se os almirantes e os cabos de guerra: um formigueiro de morteiros, de bombas, de obuses: metralhas, machadas, o arsenal reluzente das abordagens; a elle basta-lhe uma muralha de ferro.
O vento é temido: nas vastas solidões azues, elle é o lobo sinistro que anda rodando e uivando, á caça dos navios; elle acalenta o mar, massa inerte e salgada: elle faz com a agua estranhas nupcias ferozes; extermina, cantando com alegrias barbaras; esfarrapa as nuvens, persegue e esguedelha as chuvas, assobiando contente: em alguns mares do Norte, quando elle sopra, as estrellas têm maior tremor: mas o grande horror do vento, é que ataca com o peso, com a violencia, com a força, e defende-se com o esvaecimento.
O Miautonomah é assim: ataca serenamente, com violencias enormes, com fulminações tragicas, e defende-se com a impassibilidade e quasi com o esvaecimento.
Na lucta das esquadras, no meio das descargas, das trovoadas flammejantes, entre os terriveis fulgores do fogo, e os phantasmas do fumo, e as effervescencias da agua—elle passa, solta a sua fulminação enorme, despedaça, esmigalha, dispersa e continua lento, frio, impassivel, mudo, tenebroso, coberto de ferro.
Elle não receia o mar: os outros navios erguem amuradas immensas para conter o encrespamento da onda: forram-n'as de cobre, erriçam-n'as de pregaria. O Miautonomah não: elle julga a demencia do mar um prejuizo: corta a amurada e fica com o convez raso, ao rez da agua: satisfaz a velha curiosidade da vaga: e por misericordia dá-lhe hospitalidade: e para que o mar tenha alguma coisa a desfazer, a triturar, a roer—dá-lhe, por compaixão, uma varanda de hastes de ferro enferrujado, e pedaços de corda pôdre. E o mar entra, desesperado, mugindo, e lambe o chão do navio americano: em baixo, nas camas, agasalhados e preguiçosos, os marinheiros dizem:—Lá anda o mar a varrer e a lavar o tombadilho.—E com effeito, o velho oceano dos diluvios faz, humildemente, o serviço dos ultimos grumetes.
Em cima, na superficie da agua, ha o vento, as espumas, os nevoeiros, as chuvas, as trombas; elle, aborrecido, afasta-se d'este bando miseravel e vae investigar o fundo das aguas, as vegetações phantasticas, a região dos coraes, as cavernas enceladicas as purezas infinitas da transparencia, todo esse mundo submarino de que os velhos mareantes fallavam, benzendo-se com terror religioso: com a quilha de ferro, enorme, elle brutalisa aquellas virgindades do mar: em baixo, a tripulação nada sabe das tempestades: em vão ruge o mar, e torce-se, e desencadeia o jogo fulminante das ondas, e espanca o convez do navio com o ruido de mil carros de batalha; os marinheiros, em baixo, riem, cantam, baloiçam-se, pulem os aços dos machinismos, cachimbam, e leem a Biblia—serenos.
Como não ha mastreação, nem velame, nem cordagens, nem toda a amontoação confusa de calabres e de lonas—o tombadilho aberto é cheio de ar e de luz: e, durante as viagens, é uma pousada das algas, das conchas, das espumas, das aves do mar.
Dentro são as machinas, as forças: os motores trabalham solitarios, com vozes, impaciencias, preguiças, friamente, como as fatalidades da materia. Ao atravessar os espaços obscuros, vê-se o frio luzir dos aços, e os cobres luminosos; depois são as fogueiras flammejantes que dão a vida aos machinismos—vermelhas como corações sobrenaturaes: o ar é descido por machinas de respiração, pulmões terriveis: e um vento geral, fecundo, benefico, escorre constantemente por todo o negro bôjo. Fazem-se assim livremente temperaturas: frios mordentes, calores pesados, e frescuras das manhãs do Sul. Nas suas viagens pelo mundo, aquelle navio desmente, quando quer, os climas e as temperaturas.
Ora sobre aquelle negro navio, sobre os machinismos frios, aquellas forças pavorosas, aquellas fogueiras terriveis, no convez, entre as negras torres, ao livre ar, ao livre sol, alegre, glorioso, gordo, esvoaçando na sua gaiola—canta um canario.