Tal é o Miautonomah, navio de guerra da America do Norte.

Nós entrevemos a America como uma officina sombria, sonora e resplandecente, perdida ao longe nos mares.

Entrevemol-a assim: movimentos immensos de capital; adoração exclusiva e unica do deus Dollar; superabundancia de vida; exaggeração de meios: violenta predominação do individualismo: grande senso pratico; atmosphera pesada de positivismos estereis; uma febre quasi dolorosa do movimento industrial; aproveitamento avaro de todas as forças: extremo despreso pelos territorios; preoccupação exclusiva do util e do economico; doutrinas de uma philosophia e uma moral egoista e mercantil: todo o pensamento repassado d'essa influencia: uma fria liberdade de costumes; uma seriedade artificial e brusca; dominação terrivel da burguezia; movimentos, construcções, machinismos, fabricas, colonisações, exportações collossaes, forças extremas; accumulação immensa de industrias, esquadras terriveis, uma estranha derramação de jornaes, de pamphletos, de gazetas, de revistas; um luxo excessivo; e por fim um profundo tedio pelo vasio que deixa na alma a adoração do deus Dollar. Assim entrevemos a America, ao longe, como uma estação entre a Europa e a Asia, aberta ao Atlantico e ao Pacifico, com uma bella costa de navegação cheia de enseadas, molhada de grandes lagos, com os seus grandes rios que escorrem entre as terras, as culturas, as fabricas, as plantações, os engenhos; e depois uma natureza vigorosa, fecunda, eleita, desapparecendo entre as industrias, os fumos das fabricas, as construcções, os machinismos,—como a herva d'uma campina fertil que desapparece sob uma amontoação tumultuaria de multidões.

A vida da America do Norte é quasi um paroxismo.

Representa decididamente uma grande força, uma vitalidade enorme, superabundante. Mas será essa a vida ideal, fecunda, a vida do futuro?

Todos os dias dizem á Europa:—Olhae para os Estados Unidos, lá está o ideal liberal, democratico, e, sobre tudo, a grande questão, o ideal economico.

Mas a America consagra a doutrina egoista de Monroe, pela qual uma nacionalidade se encolhe na sua geographia e na sua vitalidade, longe das outras patrias; esquece as suas antigas tradicções democraticas e as ideias geraes para se perder no movimento das industrias e das mercancias; allia-se com a Russia. A raça saxonia vae desconhecendo os grandes lados do seu destino, enrodilha-se estreitamente nos egoismos politicos e nas preoccupações mercantis, scisma conquistas e extensões de territorios, subordina o elemento grandioso e divino ao elemento positivo e egoista, e a grande figura sideral do Direito ás fabricas, que fumegam negramente.

Uma das inferioridades da America é a falta de sciencias philosophicas, de sciencias historicas e de sciencias sociaes.

A nação que não tem sabios, grandes criticos, analysadores, philosophos, reconstruidores, asperos buscadores do ideal, não póde pesar muito no mundo politico, como não póde pesar muito no mundo moral.

Emquanto a superioridade foi d'aquelles que batalhavam, que lançavam grandes massas de cavallarias, que appareciam reluzentes entre as metralhas, o Oriente dominou, trigueiro e resplandecente. Quando a superioridade foi d'aquelles que pensavam, que descobriam systemas, civilisações, que estudavam a terra, os astros, o homem, e faziam a geologia, a astronomia, a philosophia, o Oriente caíu, miseravel e rasteiro.