Ha sobretudo na America um profundo desleixo nas sciencias historicas. Inferioridade! As sciencias historicas são a base fecunda das sciencias sociaes.

É a superioridade da Europa: sob a mesma apparencia de febre industrial ha uma geração forte, grave, ideal, que está construindo a nova humanidade sobre o direito, a rasão e a justiça.

O nosso mundo europeu tambem é uma extranha amontoação de contrastes e de destinos; é uma epocha, esta, anormal, em que se encontram todas as efflorescencias fecundas e todas as velhas podridões: politicas superficiaes e grandes fanatismos de ideias; um desafogo das livres consciencias e a tyrannia dos velhos ritos: diplomacias pacificas e transigentes, e um espirito de guerra surdo, acceso e flammejante: territorios violentados e conquistados, e a aniquilação pela historia e pela philosophia dos conquistadores e dos heroes: restos de influencias monarchicas, entre explosões de individualismo revolucionario; humanitarismo fundido com o mais aspero egoismo; um chaos horrivel de contradicçoes, e em cima, triumphal e soberba, a industria, entre as musicas dos metaes, as architecturas das Bolsas, reluzente, scintillante, colorida, sonora, em quanto no vento passa o seu sonho eterno—que são fortunas, imperios, festas, empresas collossaes.

Ora em baixo, sob a confusão, sereno, fecundo, forte, bom, livre, move-se em germen um novo mundo, o mundo da justiça social e economica.

Este germen é que a America não tem, creio eu.

Porque toda a America economica se explica por esta formula: feudalismo industrial.

Diz-se que na America ha um constante augmento de trafico, de receitas, de riquezas: ha augmento; mas não ha justa distribuição. A riqueza amontoa-se em proveito da alta finança—com detrimento das pequenas industrias.

Logo que na ordem economica não haja um balanço exacto de forças, de producção, de salarios, de trabalhos, de beneficios, de impostos, haverá uma aristocracia financeira, que cresce, engorda, incha, e ao mesmo tempo uma democracia de proletarios que emmagrece, definha, e dissipa-se nas miserias: e como o desequilibrio não cessa, não cessam estas terriveis desuniformidades.

Mas o grande mal da predominação exclusiva da industria é este: o trabalho pela repugnancia que excita, pela absorpção completa de toda a vitalidade physica, pela aniquilação e quebrantamento da seiva material, pela liberdade em que deixa as faculdades de concepção—por isso mesmo, sobreexcita o espirito, estende os ideaes, abre grandes vasios na alma, complica as necessidades, torna insupportavel a pobreza: nas grandes democracias industriaes onde as posições são obtidas pela perseverança, conquistadas pela habilidade, onde ha mil motores—a ambição, a inveja, a esperança, o desejo—o cerebro aquece-se, cria sonhos, ambições, necessidades impossiveis; o querer chegar torna-se uma verdadeira doença d'alma: exageram-se os meios: e toda a seiva moral se altera e se deforma.

É o que vae acontecendo na America; debaixo da frieza apparente, move-se todo um inundo terrivel de desejos, de desesperanças, de vontades violentas, de aspirações nevralgicas.