A vida e o seu supplicio é absorvida na insensibilidade da natureza, no silencio perpetuo, na força fatal e céga. E a materia vae pelos ares, pelas planicies, amollece-se nas sombras, vivifica-se nos raios claros, é rochedo, floresta, torrente, fluido, vapor, ruido, movimento, estremecimento confuso do corpo de Cybéle: e a materia sente a vida universal, a palpitação do átomo debaixo da fórma, sente-se banhada pelas claridades suaves e pelos cheiros dos fenos, sente-se impellida para a luz magnetica dos astros e dilacerada nos asperos movimentos da terra. A materia tem a consciencia augusta da sua vitalidade. E assim, sob a tua impassibilidade, ha uma angustia immensa, uma vida ardente, impiedosa, uma alma terrivel, oh formidavel natureza!

A noite descia: caía de cima uma claridade lactea; pesava um austero e lento silencio; a larga brancura celeste era gloriosa; os pastores desciam com os rebanhos lentos, balando; havia pelo ar uma bondade indefinida, uma virtude fluida: eu lembrava-me dos Elysios olympicos e mythologicos onde na claridade, passam as sombras heroicas, serenas, brancas, leves, levadas por um vento divino. Claridades sem sol!


Eu ia escutando os passos da doce noite, que vinha caminhando. Ia-me afundando no tedio, como um navio roto n'uma maré do equinoxio. Enchiam-me a alma crepusculos brancos. Entrei no grande arvoredo negro. Áquellas horas, os lymphaticos, os innocentes, os mysticos, encontram nos arvoredos languidezas e elevações asceticas. Mas eu tremia entre a ramaria inquieta como um mar, mysteriosa como um firmamento:—tremia como um homem medroso que visse erguer-se um morto. Toda aquella negra decoração de ramos torcidos, de folhagens lividas, de silencios, enchia-me de um terror profundo e trivial. A luz dissipada e transfiguradora do occaso dava aos troncos um estranho aspecto de luctadores, vindos do sangue e dos incendios: os sinos distantes eram como vozes indefinidas de miseria e de dôr.

Passava um vento incessante e perseguidor. Os môchos voavam, e as aguas sonoras eram como vozes vingativas e tragicas. A lua, entorpecida, passava por detraz da estacada de ramos. O vento era rouco e lento como um canto catholico de officios. E o grasnar lento e arrastado dos córvos parecia uma ladainha barbara de padres. As arvores doentias rangiam ao vento hybernal, o ar estava diaphano, lacteo e mortuario. As estrellas que appareciam tinham o olhar lancinante.

Cheguei á estalagem. Em baixo, na lareira, um magro fogo lambia as fuligens. A luz do meu quarto tinha a lividez dos cirios, e o espelho tinha reflexos pallidos, como de sombras mythologicas que passassem. Ouviam-se os lobos.

Lembraram-me então as outras noites, claras, doces, lentas, em que o ceu derrama somnolencias; então tambem eu ia por entre as arvores, e ouvia ondas sonoras de cantigas, que o vento fazia retinir atravez da bruma, entre o acre cheiro das efflorescencias. Aquellas vozes claras eram doces, santas, saídas de crystaes, como veladas por um luar. Eram como claridades sonoras de estrellas. Era uma multidão de fórmas divinas que assim cantavam, divindades feericas, willis, nixes, peris, fadas, que passavam ligeiras sem despertar os ramos adormecidos. Aquellas nudezas celestes, filhas do fogo, flôres do mal, ondas do ar, entrelaçavam-se, dançando nas obscuridades, que as scintillações estellares franjavam de pallidezas. No meio dos nevoeiros humanos, ellas faziam resplandecer deante dos olhos as visões paradisiacas, as creaturas sideraes de languidos mysticismos. Ellas iam n'aquelles enlaçamentos, brancas e loiras, cheias de lyrismo, com os pés vermelhos e magoados de terem pisado auroras; iam poisando nos jacinthos, nos myrthos, nas rosas barbaras cheias de sangue radioso: iam rolando sobre a brancura soluçante dos lyrios: e a sua voz triste subia, por entre o azul lacteo, para a lua chorosa.


Quando assim estava no quarto da estalagem, inerte como uma mumia, pensando n'estas coisas, vi, repentinamente, atravez das vidraças, a lua apparecer-me.

Mas não era aquella pura e immaculada lua côr d'opala—que derrama brancuras, como se atravez do azul caissem lyrios. Era uma lua metallica, fria, hostil, material como uma moeda d'oiro nova.