Ella apparecia-me mortuaria e livida como uma sombra finada, que se ergue ás grades de um adro. E o seu olhar, lancinante e rapido, estava cheio das minhas agonias.


Ora n'essa estalagem encontrei um amigo, antigo camarada, que se tinha feito saltimbanco.

Fez bem. Cançado dos pedantes, dos burguezes, dos ventres mercantis, dos imbecis afogados em gordura, fez-se saltimbanco, e vive entre os palhaços. Faz forças coberto de farrapos luzentes, engole espadas, dança farto de vinho como um Sileno. Dorme n'uma capa esfarrapada, com a nuca sobre um tambor, á frescura das estrellas e sob a bondade dos luares.

Ás vezes tem frio e fome, e gela n'uns calções feitos de veludilho e de galões d'oiro. Anda errante de villa em villa, e a populaça da lama admira-o cingido do seu diadema de metal luzente. Dança sobre a corda, e os seus gestos e as suas musculaturas fazem soluçar de desejos as gitanas e as feiticeiras. Que lhe importam as grandezas e as materialidades felizes?

Elle tem a multidão extatica e enlevada nos giros dos seus sapatos. E tem uma bem-amada de tranças tão compridas como os ramos de um chorão, e annelladas e fortes como negros pennachos de voluptuosidade: e a sua testa tem um reflexo de luar, de marmore e d'espelho: e tem um bello seio de fórmas barbaras.

Elle pula á noite, no circo alumiado, emquanto as toutinegras cantam nos cannaviaes. Elle faz girar vinte punhaes agudos em volta da cabeça, n'um circulo puro e sonoro. E a multidão, um dia, vendo aquelle diadema terrivel e faiscante, e o saltimbanco impassivel, grave, enfarinhado, sob aquella corôa de luz, tomal-o-á por um idolo e fal-o-á igual aos deuses!

Elle, o meu saltimbanco, tem a alma de oiro e o coração de diamante—e ri-se, ri-se, quando o vento sôa como flauta do inverno, e ao concerto das corujas e das ondas as estrellas dançam.

A miseria anda-lhe cavando a sepultura. Um dia, abandonado da bem-amada, morrerá sem pão, sem luz, sem calor, sem orações e sem sol. E não soffrerá mais. Viu durante a vida todo um povo curvado, applaudindo, debaixo dos seus borzeguins. Os tambores e os clarinetes tocarão o dia melhor do saltimbanco, o dia em que morrer: tocarão o seu melhor dia os ferrinhos, os timbales, os clarinetes, os tambores!

Todas estas coisas se parecem com sonhos. Mas o que é o sonho? O que são as visões? São as attitudes, phantasticas e desmanchadas, que a sombra dá ás verdades. Já pensava assim o poeta Li-Tai-Pè, que escrevia sobre as coisas santas da China, entre porcelanas e laccas, ao aroma dos nenuphares, vestido de sedas amarellas, perfumado de sandalo—dôce, contemplativo, branco, diante d'um vaso de margaridas!