O MILHAFRE
Um dia um homem entrou n'uma casa arruinada. No portal havia um nicho com um santo de pedra, que lia uma Biblia, tambem de pedra. Em redor, na beira dos telhados, nas fendas das pedras, no canto do nicho, havia hervas molhadas e verdes, e ninhos de andorinhas. O santo tinha sempre as suas palpebras de pedra descidas sobre o livro sagrado. Passavam as cavalgadas, os enterros silenciosos, os noivados, os cortejos, a pompa dos regimentos, e o santo lia attentamente o seu livro de pedra.
Vinham defronte dançar saltimbancos, passavam as frescas serenatas, vinham dos montes rebanhos e ceifeiras; o santo tinha os seus olhos de pedra sobre as paginas inertes. As devotas, lentas e desfallecidas, beijavam-lhe os pés nús, os homens severos saúdavam-o, as creanças olhavam-o com os seus grandes olhos inanimados, os cães ladravam-lhe á calva: o santo, curvado, seguia o espirito de Deus por entre as lettras do livro.
Passavam os fardos, os mercadores crestados pela industria, os poetas languidos que desfallecem nas cançonetas, os histriões que cantam nos tablados, mulheres mais preciosas que o ambar, os sabios, os mendigos, as virtuosas e as melodramaticas:—e o santo lia o seu livro prophetico.
Ora as torres gloriosas, as bandeiras, os cyprestes—ais de folhagem—os homens, perguntavam entre si:—«Que lê tão attentamente aquelle santo, que nem sequer nos olha?» E os enxurros, que passam rosnando, diziam:—«Que lê tão devotamente aquelle santo, que nem sequer nos escuta?»
Ora o santo lia assim. De noite, quando as bandeiras cáem de somno, quando os homens estão cheios de comida e de inercia—a lua, que ao nascer é material e metallica como uma moeda d'oiro nova, depois, na suavidade do azul, é tão pura, tão casta, tão immaculada, tão consoladora, como uma chaga de Christo por onde se lhe visse a alma. A essas horas, uma creança, tão pobre e tão esfarrapada como o antigo pastor S. João, vinha deitar-se junto do nicho do santo. E então, o santo afastava um pouco o livro, e toda a noite ficava cobrindo, com a grande luz dos seus olhos, aquella creança miseravel, adormecida sobre as lages.
Depois os planetas, a lua, a noite seguiam a sua viagem immensa para o oeste, e a leste começava uma claridade: eram as hesitações da luz do dia, medrosa por ter de descer ás miserias dos homens.
As bandeiras ainda estavam desfallecidas, sonhavam as arvores, a cidade dormia como outr'ora Sodoma. Acordavam então as andorinhas. Esvoaçavam gloriosas, gritando, e vinham sofregamente, em tumulto, poisar no nicho.
As andorinhas estavam nas intimidades e nas confidencias do santo.
Ora o vento, que passa pelos campos e pelas eiras, vem cheio de grãos e de sementes: a chuva cáe lúcida e fresca. O santo aparava a chuva nas prégas da capa, e os grãos nas paginas do livro. E as andorinhas, quando vinham para o nicho, bebiam na capa do santo e comiam sobre a Biblia de Deus. E, em quanto comiam e bebiam, gritavam, batiam com as azas nas barbas do santo, beijavam-se na sua bocca, aninhavam-se-lhe entre os braços, cobriam-n'o todo; e o sol, quando chegava, ficava maravilhado de vêr aquelle pobre santo de pedra, que elle não conhecia do Paraizo, com os pés entre as hervas verdes, rindo, sereno, sob a luz immensa, e todo vestido d'azas!