O homem entrou na casa arruinada e foi, atravez de pedras esverdeadas, de grandes humidades que escorriam, de madeiros apodrecidos, do muralhas leprosas de musgo, de escadarias miseraveis, até uma sala enorme, escura e tragica, e tão alta, que involuntariamente o olhar procurava as constellações n'aquella sombra.

No fundo da sala havia um grande crucifixo de madeira. Sobre a cabeça macerada do Christo, as traves pôdres do tecto abriam uma larga fenda. Por alli vinha a chuva escorrer-lhe nos cabellos como o antigo suor do Jardim das Oliveiras, vinham os granisos magoal-o como as pedras da paixão, vinha o sol alumial-o como a tocha de Judas, e a lua vinha, tambem, tornal-o mais livido, como n'aquella noite em que elle, depois de ter visto a gente soluçante descer para Jerusalem, sentiu poisar na sua cruz um rouxinol que toda a noite cantou.

Sobre a cabeça e sobre os braços do Christo havia teias d'aranha; em baixo os ratos roíam-lhe a cruz.

Então o homem sentiu que aquelle seio constellado, e aquella bocca d'onde saíu a revelação do amor, do perdão, e da alma, tinham o pó, a podridão, a caliça e os bichos; e que, se um dia Christo, vendo o homem afflicto e miseravel, lhe tinha arrancado da alma o mal, não era muito que o homem, encontrando Christo abandonado, profanado e roído, lhe limpasse da cabeça as aranhas! Mas, quando ia a limpar a imagem, viu, sobre a cruz, junto da mão pregada, um milhafre enorme. O homem, com as mãos, quiz arredar o milhafre.

E a ave, então, com a antiga voz dos animaes da Biblia, do Apocalypse e dos livros dos prophetas, disse surdamente: «Homem, deixa a cruz socegada!»

Atravez das fendas viam-se os astros sagrados. E o milhafre, batendo as azas, dizia:

«Deixa a cruz, deixa! Não tenhas medo que apodreça. Lá em cima luzem agora estrellas, soes, planetas, scintillações, carbunculos. É o pó dos Deuses mortos. Todos se finaram, histriões ensanguentados, e a sua farça acabou em desterros.

«Morreram velhos, expulsos, esfomeados e nús.

«Este ficou, solitario, alumiando. Elle perdoou emquanto os outros luctaram, elle amou emquanto os outros choraram: por isso fica emquanto os outros passam. Deixa. Esta cruz, que é de madeira, vale tanto como as que lá em cima fazem os raios dos astros, ou no silencio dos myrthos dois olhares bem-amados.