«Deixa as aranhas, o pó, a caliça, os bichos, a neve, a geada, o apodrecimento. Elle póde bem dar ás aranhas o seu corpo de madeira, pois que vos deu a vós o seu corpo de carne—a vós, que pregaes com o mesmo riso e o mesmo esquecimento os morcegos no alto das janellas e o Christo no alto dos montes; a vós, que lhe vindes limpar os cabellos de madeira depois de lhe ter arrancado os cabellos vivos; a vós, que quereis lavar as nodoas que elle tem no peito, e não vêdes as immundicies que tendes na alma. Tudo o que elle creou, o amor, o ideal, o perdão, a fé, o pudor, a religião, Deus, todo aquelle evangelho da vida-nova anda pelo mundo, tão degradado, tão coberto de bichos, tão immundo como o seio d'esta imagem antiga. A materia, o impudor, o apetite rude, o odio, o aviltamento, o trafico, a miseria e a penalidade, andam sujando a tua alma, ó homem! como as aranhas andam sujando a cabeça d'este Christo! E não reparaes, e não vêdes, sobre os espiritos, sobre os corações, sobre as consciencias, o pó, a caliça, o caruncho, os ratos e os vermes!
«Sim, é verdade: tudo é magnifico, e são, e banhado de sol. As cidades são limpas e caiadas, só as consciencias é que tem nodoas; as praças estão cheias de illuminações, só os corações é que estão escuros; os caes estão arejados, só os espiritos é que suffocam; os corpos estão sãos, cobertos de estofos, frescos e resplandecentes, só as almas é que andam núas, miseraveis e leprosas. De resto, tendes o riso, a farça, os paraisos artificiaes, as arcas venaes, e tambem o esfriamento do tumulo! Oh amigos intimos dos vermes, como vós cuidaes do corpo, e o lavaes, e o amaciaes, e o engordaes—para a pastagem escura das cóvas!
«Homem, que fizeste tu da alma? Ao principio não era conhecida, depois foi vendida, depois foi apupada; tu, modernamente, julgaste melhor matal-a—mas não certamente de cançaço com viagens a Deus! Déstel-a a despedaçar á negra matilha do mal. Em compensação, guardaste o corpo: para esse uma religião, um asylo forte como o sol, os sete sellos da lei e a escolta dos regimentos. Esse é o sagrado, o immaculado, o pontifical, o victorioso. Prohibição a Deus de lhe tocar. Para elle palacios, cortejos, serralhos, estofos, pedrarias, o sol e a iluminação dos astros. Para elle a inviolabilidade: Não matarás!
«Começaram então as cruzes a ficar desertas, os cepos a encher-se de musgo, as forcas a apodrecer nos caminhos. Nós, os milhafres, e os nossos camaradas, os abutres, para quem já não havia corpos nos despenhadeiros, ladrões arroxeados pela corda, afogados disformes, deixamos os grandes montes e os rios, as vastas tradições do sangue, e viemos, para viver, acceitar, com os capões, a domesticidade nos parques resplandecentes, ou andamo-nos mostrando aos imbecis, pelas feiras, n'uma gaiola! E as aves da noite, depois de terem visto a natureza immensa, as afflicções do vento, as nupcias do mar, de terem luctado nas tempestades e insultado as estrellas, vêem, modestamente, comer bichinhos no saguão dos burguezes! Eu, que tinha estado entre a força, quiz, ao menos, ficar entre a graça; e, depois de ter vivido na noite de Deus, quiz, ao menos, morrer na madrugada de Jesus! E, entretanto, a alma morre esmagada e solitaria, e a grande vida moderna, a vida do sol, da musica, dos metaes, vae, entre fulgurações, pisando e cuspindo n'aquella coisa miseravel. E ainda está quente o sangue de Jesus!
«Homem, que fizeste tu do pensamento?
«Anda expulso, perseguido e sublime, como um Deus antigo. Cravaste-lho no seio as sete dôres. Coube-lhe a dôr e o escarneo. É necessario que, nas cidades, os pensadores e os artistas extaticos soffram e sangrem: os triumphos dos homens da materia são como os dos antigos imperadores—só são completos quando passam entre torturas. E quem havia de soluçar sobre a scena moderna da paixão, senão os que têem alma?
«Amam, suffocam, cáem, agonisam, e entretanto vae passando a cohorte dos victoriosos e dos reluzentes, e as suas bolsas riem-se d'aquelles corações, como os botões d'oiro das suas camisas apupam a luz dos astros.
«E os que quizerem viver e tiverem a alma grande, bella e heroica, têem de se baixar á estatura burgueza e mercantil dos cerebros modernos. Os deuses olympicos, se não se deixassem ajuizadamente finar nas florestas antigas, teriam de se empregar nas secretarias. O soberbo pavão de Juno viveria n'um pomar dos arrabaldes. Homero seria localista. Os cavalleiros andantes roubariam lenços nos ajuntamentos, e o tragico S. Jeronymo seria presidente d'uma junta de parochia. D'este modo tu acceitas a arte, o pensamento, a alma. Não, arte, não te vás; a vida moderna dar-te-á uma libré resplandecente; vem, musica, tu que creaste a Allemanha, far-me-ás uma contradança; vem, architectura, tu que deste hospitalidade a Deus, far-me-ás uma estufa; vem, esculptura, tu que fizeste o povo dos deuses, ó bella esculptura! vem fazer-me um gavetão. Oh! tristes domesticidades do ideal!»
Houve um silencio. Havia na sala um ar mystico, como para a concepção d'um Deus.
O milhafre esvoaçava. Ouvia-se o chorar d'uma flauta. E o olhar do Christo errava, contemplativo e attento, entre as estrellas innumeraveis, emquanto na escuridão, aos seus pés, os ratos lhe roíam a cruz.