«Vae-te, disse o milhafre. Os ratos róem a cruz, eu estou velho: a antiga geração das aves da noite vae-se. Os prégos já se despregam, a cruz apodrece. E quando ella se desfizer, atirarei o seu pó á grande natureza, ao elevar da lua, que vale o elevar da hostia. Irei, oh meu Deus! para além dos soes e dos caminhos lacteos, onde as constellações são gôttas de sombra, certo—eu que sou da vasta terra, o selvagem dos prados, a respiração dos antros, eu que sou a palpitação dos montes—certo de que, se os homens não derem a cruz aos Christos, não lh'a dará tambem a natureza. E eu, que roí as ossadas verdes, tendo visto sempre Este que fez o bem, que amou, que perdoou, pregado n'uma cruz, irei tambem, entre os soes meio doidos, eu, que devastei, e matei, e escorri do sangue, crucificar-me n'um astro!»
Assim fallou, lentamente, aquelle milhafre philosophico e lettrado, emquanto as violas gemiam, e os pobres tremiam de frio; assim fallava, de cima d'uma cruz, n'uma sala legendaria, longe das maravilhas dos Cains burguezes, n'estes tempos livres, sensatos, verdadeiros, magnificos, em que, como se não pódem pôr certas verdades na bocca dos homens, tem de se dependurar do bico dos milhafres.
LISBOA
Lisboa tem ainda meiguices primitivas de luz e de frescura: apezar dos asphaltos, das fabricas, dos gazometros, dos caes, ainda aqui as primaveras escutam os versos que o vento faz: sobre os seus telhados ainda se beijam as pombas: ainda, no silencio, o ar escorre pelas cantarias, como o sangue ideal da melancolia. E Deus ainda não é um poeta impopular.
Lisboa que faz?
Antigamente a cidade, urbs, era o logar que pensava e que fallava, que tinha o verbo e a luz. Roma creou a justiça, Athenas idealisou a carne, Jerusalem crucificou a alma. Por isso Roma caíu, e os porcos enlameiam os restos de Athenas, e os cães uivam no silencio de Jerusalem. Os seus olhos olharam muito para a verdade, e cegaram: os seus ouvidos escutaram muito o pensamento, e ensurdeceram: as suas mãos esculpiram muito o ideal, e tolheram-se.
Pensar é soffrer, alumiar é luctar. A noite, ao succumbir, lucta com a madrugada, e deixa-lhe a chaga incuravel do sol: d'ella escorre a luz. As superstições, os preconceitos, os erros, os prejuizos, as fatalidades, luctam com a alma, e deixam-lhe a ferida insanavel do ideal: d'ella escorre a verdade. Esta ferida dá a febre, o cansaço, o desespero, a convulsão. Paris tem esta antiga e tragica ferida que teve Athenas, Babylonia e Jerusalem. Soffre, porque pensa. Os pés têm a intimidade da lama, as azas têm a camaradagem da luz. Todo o pé quer ser aza.
D'ahi ambições, desalentos, luctas obscuras, perdições, descrenças, fulgurações do mal, impurezas, traições, invejas, injurias, torturas:—a congestão do espirito! São estas as dôres immensas, as nodoas do pensamento, as manchas do sol.
Lisboa não tem estes defeitos da luz: é serena, imperturbavel, silenciosa. Quer a sua inviolabilidade, evita as feridas terriveis. Tem a sensatez, a prudencia, a economia, o medo. Não quer alumiar, para não luctar; não quer pensar, para não soffrer. Não quer crear, pensar, apostolar, criticar. Escuta e applaude toda a voz, ou sejam as imprecações de Danton, ou os versos do poeta Nero. As ondas que solucem, as florestas que se lamentem! Ella tem o riso radioso e sereno.
Sente-se abundante, gorda, coberta de luz. Sente-se protegida, livre, caiada e fresca. Não tem de catar as suas miserias, nem de amparar o páo das forcas: por isso commenta Sancho Pansa. Não tem de construir a cathedral das ideias, nem de compôr a symphonia da alma: por isso escuta os melros nas varzeas, e resa as Ave Marias. Paris, Londres, New-York, Berlim, suam e trabalham, em espirito. Ella não tem que semear: por isso resona ao sol.