Ás vezes, porém, commette o mal, enterrando ideias. Onde? Na escuridão, no silencio, no desprezo. Lisboa é um pouco coveira d'almas!
Como Roma, ella tem as sete collinas; como Athenas, tem um ceu tão transparente que poderia viver n'elle o povo dos deuses; como Tyro, é aventureira do mar; como Jerusalem, crucifica os que lhe querem dar uma alma. Todavia, Lisboa o que faz? Come.
Come, ao cair da tarde, sem testemunhas impiedosas, quando sabe que os astros vêm longe, que as azas sonham com o vento, que os olhos das flôres se fecham de somno. Deus não vê, da sua varanda de sol, que, para esta velha cidade, heroica e legendaria, que nos seus velhos dias tomou o peccado da gula, o abdomen é uma realidade livre! Até alli, durante o dia, os seus cabellos caíam como ramos de salgueiros, as suas faces estavam amarelladas, dos seus olhos chovia dôr; ainda não tinha comido! Depois, á noite, quando sáe do alimento como d'uma victoria, os olhares são gritos de luz, os cabellos plumas gloriosas, o peito arca de ideaes: comeu!
Lisboa nem cria, nem inicia; vae.
Em religião, nem tem a devoção dos monges, nem a impiedade ironica: é simples. Antigamente faz vir um Christo crucificado, erguendo os braços supplicantes, no prestito dos enforcados: hoje choraria pela Mãe Dolorosa, depois de ter erguido uma estatua a Voltaire: penduraria ao pescoço, singelamente, com as contas de um rosario, a sua antiga viola de Alfama.
Em politica, copia Sancho Pansa.
Não tem a coragem que se dedica, nem o medo soluçante: parece ter justamente o heroismo de uma espada embainhada: na campanha da Europa, todavia, com os seus uniformes negros, espantava a velha guarda. Tem a religião sensual do sol, do calor, e do sonino: na Beresina, apupava as neves!
Não tem a febre das especulações e das industrias, nem o amor das contemplações e dos sonhos: tem um trabalho cheio de séstas: em abril suspende a enxada para vêr voltar as andorinhas.
No vicio é timida: copia desgeitosamente as Babylonias distantes: aproveita o fogo de Sodoma para aquecer os pés: apara as unhas ao diabo; é o banho tepido dos peccados mortaes.