Adoradora, em architectura, da linha recta dos palacios de crystal; sectaria, em esculptura, dos biscuits de Sèvres; namorada, em poesia, do visconde d'Arlincourt—no theatro quer a magica: tem sede e fome d'aquelle ideal: quer as montanhas transparentes, os palacios de missanga, nudezas celestes, noivas de coral, architecturas de luz e sons, papeis collados, vermelhão e ouropeis, mulheres despidas, pedraria, e oiro, oiro, oiro, e ainda oiro, e mulheres despidas, e mais oiro! Lisboa, por sobre uma scena resplandecente, vê as fórmas estranhas que toma o sonho da imbecilidade: quer a magica: em verdade, a magica é o espectro solar do idiotismo!
Vem a noite, e Lisboa toma a impassibilidade das penedias.
As casas, sem luz, têm o aspecto calmo e sinistro dos rostos idiotas. A illuminação é um côro de gaz, bocejando. Das encruzilhadas das ruas solitarias, de todo este deserto de cantarias e de vidraças, exhala-se uma somnolencia fluida, um halito de tedio. Lisboa, de noite, é tão silenciosa que quasi se sente o crescer da herva que a ha-de cobrir no dia das ruinas.
É tão triste, que a noite parece um arrependimento da vida! Nas bellas moradas, nos casebres, nas trapeiras, em cambraia, em farrapos, em palhas, por toda a parte, ha um vasto somno inerte e vegetal.
Que fazem, entretanto, os errantes da noite, a familia Vicio, a gente crepuscular, os herdeiros terriveis de Lovelace e de D. Juan Tenorio?
Compram, na penumbra domestica, o amor fuliginoso das cosinheiras, comem, melancholicamente, mexilhões nas tavernas; os mais pobres encostam-se ás esquinas, esfarrapados e doentes, cariatides somnolentas do tedio!
E nas casas? Ahi, nos andares resplandecentes, onde as mãos são macias e macios os sentimentos, estão, concentradas e sérias, fórmas vestidas de luto, como os viuvos, ou vestidas de branco, como as monjas. E suaves são as fallas, e o andar cheio de ondulações como o nadar das sereias, e as danças severas como a celebração d'um rito: e suaves são as petalas, e as musicas chorosas, e as luzes, aves de claridade presas, que palpitam e querem o livre azul: mas sobre a alma, e os corpos, e os adornos, derrama-se a tristeza dos viuvos e a frialdade das monjas. E isto são as festas!
Mais acima, nos andares modestos, resonam aquellas familias, vulgares e asperas, que nascem com a alma cheia de frio, que vivem entre a belleza, a graça, a paixão, como insectos entre os cabellos d'uma santa, e morrem solitarias, invejosas, com os corações cheios de revolta, porque não amaram!
Depois, mais em cima, nos ultimos andares, é a gente do trabalho: operarios severos, doces raparigas com alma de passaro, gargantas onde, como nas veigas de Israel, todo o dia se canta; e, tambem, a gente estupida e metallica que tem a brutalidade do trabalho com a rudeza do coração, indoles asperas, olhos invejosos, mãos avaras, peitos vasios, que a essas horas da noite, com os cabellos caidos, vêem a vida tão núa, tão apertada, tão brutal, tão suja como a sua trapeira!