E depois mais acima, debaixo dos telhados, os mendigos, os esfomeados, os miseraveis, a essas horas, com grandes olhos aterrados, catam-se, ou roem as côdeas, ou gemem de dôr, ou morrem entre a caliça e as aranhas, ou se remendam, cantando impuramente!

E por cima (como na jerarchia da dôr, das tristezas do pobre, só estão as chagas do Christo) o grande azul, sereno, transparente, cheio de universos, esconde, por detraz da gradaria dos astros, o Mysterio e a Graça!

A essas horas, ó miseria das cidades! longe dos conservatorios, e das academias, e das magicas, pelos prados e pelas varzeas, representam-se as verdes comedias da natureza: os rouxinoes dão a replica ás folhas melodiosas, as flôres choram pelas desgraças de um melro amoroso, os olmos teem attitudes grotescas de palhaços, e o ceu, como um amante tragico, criva-se de punhaladas de luz!


Em Lisboa a vida é lenta. Tem as raras palpitações d'um peito desmaiado. Não ha ambições explosivas; não ha ruas resplandecentes cheias de tropeis de cavalgadas, de tempestades d'oiro, de velludos lascivos: não ha amores melodramaticos: não ha as luminosas efflorescencias das almas namoradas da arte: não ha as festas feericas, e as convulsões dos cerebros industriaes.

Ha escassez de vida; um frio senso pratico; a preoccupação exclusiva do util; uma seriedade emphatica; e a adoração burgueza e serena da moeda de cinco tostões—da moeda de cinco tostões, branca, perfeita, celeste, pura, immaculada, consoladora, purificadora!


O luxo dos vestuarios é reflectido, pausado, calculado.

Um outro luxo ha, mais doido: esse, quando é novo, ruge, resplandece, deixa-se balançar em grandes prégas desfallecidas—um pouco baixamente, de camaradagem com a lama. Mais tarde, depois das ostentações e dos amores, envergonha-se e vae-se mascarar ás tinturarias: nos seus velhos dias anda, miseravel, pedindo esmola por casa das adelas!

A Lisboa material tem posições moraes. Ha sitios que dão, aos que os pisam, uma individualidade. O lagedo e a cantaria consagram espiritos. Encontrar-se no Chiado—significa ter a fina flôr da graça, a vivacidade conceituosa e costumes dissipados. Estar no Martinho—revela inspiração, divindade interior, lyrismo e politica. Oh Lisboa, tu não tens caracteres, tens esquinas!