Lisboa tem compaixões celestes: agrupa-se, em côro de lagrimas, para vêr a morte d'um cão: mas afasta-se logo, assobiando, se começa a agonia d'uma alma. Tem tambem uma curiosidade timida e facil: senta-se nos passeios pelo estio, entre o pó, olympicamente, como os Deuses entre a luz, e fica attenta, concentrada, suspensa, idiota—a vêr caminhar seis mil pernas!


Um dia Paris aborreceu-se e expulsou os reis; outro dia aborreceu-se o acolheu os imperadores. Ás vezes Lisboa aborrece-se—e entra na politica.

Lisboa toma então attitudes, clama, conjura nas esquinas, é bondosamente afastada pela policia, e vem, toda gloriosa e feliz pelas tyrannias derrubadas, reler a cartilha!


Uma das maiores alegrias de Lisboa é sujar-se!

Nos tempos mythologicos, ás vezes, uma deusa fazia-se mulher, esposa e mãe, fiava na roca d'ebano incrustada de lapis, e dobava as lãs vermelhas de Mileto. Vinha, porém, um dia no anno em que a mulher ia, no Olympo, ser deusa. Deixava esposo, filhos, lares, parentes; debalde lhe pediam que não fosse, temendo que ella, mulher e deusa, não se acostumasse, na volta, ás lampadas de gineceu, ella que só ia ser alumiada pelos astros do Olympo. Debalde: chegado o momento, nada impedia a esposa de ser divindade: via-se aquelle corpo casto, argilla ideal, azular-se e, transparencia viva, perder-se na luz.

Lisboa é assim. Vem um dia em que ella quer voltar ao seu elemento primitivo, e ninguem a póde impedir de ser lama: é pelo entrudo.

Suja-se então livremente, faz tempestades nojentas; n'aquelles dias o seu tedio é feito d'immundicie.