Transfigura-se. E como a Deusa deixava, na antiguidade, os filhos e os lares, para ir ser luz, Lisboa esquece as funcções do seu tedio, a religião da moeda d'oiro, o sacerdocio da economia, as attitudes emphaticas do seu pudor, para se dar livremente á lama!

Lisboa é a hospedaria do vento. O antigo Euro paga a hospedagem, atirando a poeira ás ruas, ás praças, ás avenidas, aos caes, á cara de Lisboa! Sublime adulação: suja-a!

Lisboa respeita a limpeza, mas adora a lama. Collisão! Lisboa, cidade inspirada, corta magnificamente o embaraço, lavando-se no lodo do Tejo!


Athenas produziu a esculptura, Roma fez o direito, Paris inventou a revolução, a Allemanha achou o mysticismo. Lisboa que creou?

O Fado.

Fatum era um Deus no Olympo; n'estes bairros é uma comedia. Tem uma orchestra de guitarras, e uma illuminação do cigarros. O palco está mobilado com uma enxerga. A scena final é no hospital ou na enxovia.

O panno de fundo é uma mortalha!


Todos os dias, quando o sol se vae lavar, nas aguas, dos olhares dos homens, quando os corpos estão em flôr e passam os olhos pretos, de que Deus é avaro, e a maledicencia se abre como uma tulipa, e os risos são clarões, e a vida se balouça cheia de sonhos, de lustres de olhares, de beijos côr do sol, de camelias e de pomadas, passam na rua umas carruagens lentas, com grandes arabescos doirados: são coches; as suas armas são caveiras; vão alli os mortos.