Fica-te em paz, Lisboa! Dorme, digere, resona, soluça e cachimba. E se algumas lagrimas em ti cairem, vae-as enxugar depressa ao sol! Fica-te em paz! Os que teem alma não querem a luz dos teus olhos; pódes consumil-a a contemplar o ceu e os universos; por causa do teu olhar, sempre erguido para lá, ninguem terá ciumes do ceu!

Os que teem coração, não querem as caricias das tuas mãos; pódes emmagrecel-as a rezar a Jesus; por causa das tuas mãos sempre erguidas para elle, ninguem terá ciumes de Deus!

Tu tens a belleza, a força, a luz, a graça, a plastica, a agua resplandecente, a linha magnifica! Resigna-te, oh Lisboa querida, oh clara cidade bem-amada, oh casta graça silenciosa, resigna-te, oh doce Lisboa, coroada de ceu, resigna-te—a não ter alma!

O SENHOR DIABO

Conhecem o Diabo? Não serei eu quem lhes conte a vida d'elle. E todavia sei de cór a sua legenda tragica, luminosa, celeste, grotesca e suave!

O Diabo é a figura mais dramatica da Historia da Alma. A sua vida é a grande aventura do Mal. Foi elle que inventou os enfeites que enlanguescem a alma, e as armas que ensanguentam o corpo. E todavia, em certos momentos da historia, o Diabo é o representante immenso do direito humano. Quer a liberdade, a fecundidade, a força, a lei. É então uma especie de Pan sinistro, onde rugem as fundas rebelliões da natureza. Combate o sacerdocio e a virgindade; aconselha a Christo que viva, o aos mysticos que entrem na humanidade.

É incomprehensivel: tortura os santos e defende a egreja. No seculo XVI é o maior zelador da colheita dos dizimos.

É envenenador e estrangulador. É impostor, tyranno, vaidoso e traidor. Todavia conspira contra os imperadores da Allemanha: consulta Aristoteles e Santo Agostinho, e supplicia Judas que vendeu Christo, e Brutus que apunhalou Cesar.

O Diabo ao mesmo tempo tem uma tristeza immensa e doce. Tem talvez a nostalgia do ceu!