—Estou velho. Vae-se-me a vida. Sou o ultimo dos que combateram nas estrellas. Os abutres já me apupam. É estranho: sinto nascer cá dentro, no peito, um rumor de perdão. Gostava d'aquella rapariga. Lindos cabellos louros, quem vos dera no tempo do ceu! Já não estou para aventuras de amor! A bella Imperia diz que eu me vendi a Deus!

—A bella Imperia!—disse o pagem.—As mulheres! vaidades, vaidades! As mulheres bellas foram-se com os deuses bellos. Hoje os homens são mysticos, frades, santos, namorados, trovadores! As mulheres são feias, avaras, magras, burguezas, vestidas de burel, cingidas de cilicios, com uma pouca d'alma incommoda, e uma carne tão diaphana, que se vê atravez o lodo primitivo! Miserias! Ai Athenas! Corintho! Mileto! Tenedos! Abydos!

—Vou achando risivel a obra dos Seis Dias! As estrellas tremem de medo e de dôr. A lua é um sol fulminado. Começa a escassear o sangue pelo mundo e a apparecer muito a tinta. Eu tenho gasto o mal. Fui prodigo. Se eu no fim da vida tinha de me entreter perdoando e consolando—para não morrer de tedio! Fica-te em paz, mundo! Sê infame, lamacento, podre, vil e immundo—e sê todavia um astro no ceu, impostor! E comtudo o homem não mudou. É o mesmo. Não viste? Aquelle, para amar, feriu com uma agulheta o peito da imagem. Como nos antigos tempos, o homem não começa a gozar um bem, sem primeiro rasgar a carne a um Deus! É esta a minha ultima aventura. Vou para o meio da natureza, para junto do livre mar, pôr-me socegadamente a morrer.

—Tambem os diabos se vão! Adeus, Satan!

—Adeus, Ganymedes!

E o homem e o pagem separaram-se na noite.

A poucos passos o homem encontrou um cruzeiro de pedra.

—Estás tambem deserto!...—disse, olhando para a cruz.—Os infames pregaram-te e voltaram-te as costas! Foste maior que eu! Soffreste calado.

E sentando-se nos degraus do cruzeiro, emquanto vinha a madrugada, afinou a guitarra e cantou, no silencio:

Quem vos desfolhou, estrellas,
Dos arvoredos da luz?