Foi elle que, um dia, na aula de direito canonico, prophetisou, com gestos tragicos, a destruição de Babylonia! Vinha tambem S., todo armado: entrava ordinariamente pela janella, galhardamente, como Almaviva, estendia sobre os timidos a grande sombra protectora dos seus bigodes, e pela noite alta saía á caça dos lobos. Perseguia debalde um bando de lobos errantes, que, segundo elle, deviam ter acampado na humidade melodiosa do Salgueiral. Vinha tambem M., de sinistras ironias: um dia, no Bussaco, encontra um homem de suissas apostolicas, corre para elle, e aperta-o entre as mãos robustas, com o gesto de quem esmaga um insecto.—O que faz?!—bradava o homem.—Estou a catal-o; o senhor, entre esta floresta, faz-me o effeito d'uma pulga entre as barbas de Moysés!
E continuou a esmagal-o.
No teu quarto celebrava-se a arte. Era o Hotel Rambouillet do romantismo coimbrão.
Alli, muitas vezes, sentado sobre a Mechanica celeste de Laplace, tu me mostraste, mysteriosamente, um systema solar que tinhas creado e que tinhas fechado dentro d'um frasco. Os universos, eram globulos d'agua. Um dia um cão entornou aquelle firmamento!
Que tardes! Da varanda via-se a serenidade virgiliana dos prados e do rio. Liamos: eu declamava Hamlet, tu tocavas na tua rebeca a morbida Lucia! Muitas vezes, entre um concilio revolucionario, tu lias em pé sobre a mesa, dramaticamente, os Iambes de Barbier—os Iambes, de que o classico A. dizia gravemente terem um defeito: serem sublimes! Celebravamos cerimonias d'um culto desconhecido diante do busto de Shakspeare. Davamos grandes batalhas! Combates crueis! Ainda a seriedade estremece! Eram dois bandos. De um lado os pagãos, os classicos, os positivistas; do outro os barbaros, os romanticos, os mysticos.
As balas eram nomes: arremessavamos, de bando a bando, sanguinolentamente, os nomes dos grotescos de cada seita. Um romantico feria um classico, gritando-lhe com gesto terrivel: Domingos dos Reis-Quita! O classico cambaleava, mas respondia vingativo: Gilbert da Pixérécourt! Deves-te lembrar que uma vez um classico traiçoeiro atirou desapiedadamente ao peito de um adversario romantico este nome mortal: Visconde d'Arlincourt! O romantico levou dolorosamente a mão ao coração, e caíu inanimado.
Quando o levantamos não era um cadaver, mas era um convertido. Desertou para as fileiras classicas, por não querer pertencer a um bando que tinha suspensa eternamente sobre si esta vergonha de Damocles: o Visconde d'Arlincourt! Lembras-te de certo que nós fômos os Samsões dos Philisteus classicos: não os derrotamos com a mesma queixada, mas apunhalamol-os, um a um, com nomes de classicos portuguezes. Um dia debandaram, atordoados, em quanto que nós do topo da escada gritavamos sem quartel: Sá de Miranda! Garção! Semedo! Quita! Sepulveda!
Já cançados, sem armas, atiravamos-lhes estes nomes como pedras.
Lembras-te dos ensaios dos Amigos Intimos? Havia uma palavra que eu não conseguia pronunciar bem: era—solidariedade. Na noite da representação, tomei o partido de a cantar, separando as syllabas como notas de musica. Era na casa dos adereços do theatro, que nós discutiamos com T. a superioridade da arte grega. A pregar uma cortina, arredando bastidores, proclamavamos o Moysés e o Pensieroso com grave detrimento da Venus de Milo—a grande Aphrodite. Depois das representações, havia ceias semelhantes ás bodas de Gamacho! Uma noite saimos todos, de mantos, com corôas de loiro, symbolisando a geração dos Petrarcas, e cantando um côro lacrimoso.
Tinha havido na rua de... uma reunião, e as familias, ao saír, dispersavam com gritos de aves assustadas, ao ver aquella multidão de phantasmas coroados, que recitavam um soneto amoroso, offerecido a Deus em nome dos discipulos de Petrarca!