Aquella epocha foi uma pequena Restauração, tanta era a vida, a seiva espiritual, a vaga convulsão melodiosa da alma. Adoravamos o theatro. O theatro era a paixão, a lucta, a dôr, o coração arrancado, e gemendo, sangrando, rolando sobre uma scena resplandecente. O nosso theatro—era Shakspeare e Hugo, o os comicos hespanhoes, sombrios e magnificos, do seculo XVI.
Admittiamos tambem a satyra no theatro, mas a satyra sanguinolenta, Juvenal dialogado, a brutalidade sublime de Rabelais, o largo riso gaulez, toda a lama de Marcial, com todo o sangue de Tacito—para pintar a cara macia do egoismo humano.
Tinhamos um hemicyclo de poetas. Collocados sob um ponto de vista exclusivo, só era admittido á nossa communhão o que derivasse da força, do rugido da natureza, da palpitação selvagem da vida e da paixão.
Tinhamos, ao mesmo tempo, occultamente, um idealismo doentio e dissolvente. O nosso grande compositor era Beethoven; e todavia eu, desgraçado de mim! adorava Mozart em segredo. E eu suspeito-te, amigo, de teres n'esse tempo condescendido com Novalis e Luiz Tieck.
Para nós (e com grandes pancadas contrictas sobre o peito o digo) Portugal não tinha direito de cidade na região da arte e da alma. Aceitavamol-o como paiz d'acção. Um dos maiores poetas de Portugal, para nós, era Vasco da Gama! Tinhamos um systema de nações-almas e nações-braços. Assim, para nós, a maior epopeia portugueza era a exploração do mar. As suas rimas eram conquistas. As scenas dos seus dramas escorriam de sangue junto ás muralhas de Diu.
Litterariamente, Portugal, na nossa opinião, era simplesmente o pretexto para o Bosquejo Historico do snr. padre Figueiredo. Do passado, apenas acreditavamos em João de Barros e Camões. Garrett tinha-se separado de nós, tomando pelo atalho que leva a Deus, e legando á geração presente a pouca alma que ella ainda tem.
Os contemporaneos, ai! não os conheciamos. Hoje eu, e creio que tu, conhecemos bem os nobres espiritos que se obstinam em pensar no meio d'este deserto d'almas, uns junto da historia, outros junto do verso, alguns amparando a critica, outros reanimando o drama e o romance.
Mas, n'aquella epocha d'espontaneidade, só viamos o que era verdadeiramente e incontestavelmente sol!
Discutiamos largamente a natureza, e eu lembro-me de te ouvir fallar, deante daquella luz que cáe desfeita em tristeza no Penedo da Saudade, ácerca da formação das nebuloses, e, partindo d'ahi, descrever o homem e Deus, até á procissão da vespera.
Havia entre nós todas as theorias e todas as seitas: havia republicanos barbaros, e republicanos poeticos; havia mysticos que praticavam as eclogas de Virgilio; havia materialistas sentimentaes e melancolicos que proclamavam a materia com uma meiga languidez nos olhos, e fallavam da força vital, quasi de joelhos, com as mãos amorosamente postas; havia pagãos que lamentavam as suas penas de amor, castamente, sob a nevoa luminosa dos astros. Tudo havia, e tambem a serena amizade incorruptivel, o fecundo amor do dever, e a ingenuidade risonha de tudo o que desperta.